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Cantinas versus cestos? Não, Obrigada

Pura e simplesmente, os cestos com produtos alimentares não são solução como já o não eram as cantinas sociais.

Saber que temos compatriotas que sobrevivem recorrendo a cantinas sociais é doloroso e amarfanha as duas partes, quem recebe e quem dá. Saber que o governo avançou com a ideia de distribuir cestos com produtos alimentares para substituir em parte as cantinas, continua a perturbar e não elimina a humilhação. Pura e simplesmente, os cestos não são solução como já o não eram as cantinas. Este tema das cantinas sociais é muitíssimo delicado. Seja qual for a perspectiva, seja qual for a explicação, estamos sempre a tocar numa questão muito sensível e que, para as pessoas visadas, facilmente pode ser humilhante. Falamos de cantinas sociais para pessoas com inteligência, sensibilidade e sentimentos. Recorrem às cantinas sociais porque não têm emprego (ou com emprego tão mal remunerado que os mantém na condição de pobres a precisar deste apoio social), a viver em condições muito precárias, para pessoas sem um tecto ou sem família. São pessoas a quem falta tudo mas a quem não pode se pode retirar a dignidade. Desceram a escala toda, não há mais nada para enfrentar. Contudo paira sempre a dúvida, a pergunta muito amarga: será que estamos a fazer o que devemos? É mesmo com cantinas sociais que o problema se resolve? Os cestos serão uma solução melhor? Quantas marcas vão deixar nas pessoas a quem se destina esta esmola? Estamos no meio da pobreza, não há como ignorar e todos, os cidadãos e o Estado têm de se empenhar para erradicar esta ignomínia.

O governo Passos Coelho+Portas pela mão do ministro Mota Soares criou, e gabou-se disso, muitas cantinas sociais. Em 2014 chegaram às 859. Também há associações das mais variadas a distribuir comida; outras a gerir o que sobra de comida confeccionada. À noite, encontramos carrinhas a distribuir um prato de sopa quente e nas portas dos fundos dos supermercados há pessoas à procura, nos caixotes do lixo, de comida embalada fora dos prazos de validade, não comerciável.

Este cenário é por demais degradante para o aceitarmos e para o governo esta situação também deve ser inaceitável. O governo, aliás, revela essa preocupação ao preparar o Relatório de Avaliação das Cantinas Sociais no qual se faz o diagnóstico da situação e se propõem medidas. Um levantamento indispensável, com certeza. Como consequência imediata, o governo anunciou a substituição parcial das cantinas pela distribuição de cestos com produtos alimentares para serem confeccionados os quais deverão responder às necessidades de 60 mil pessoas mais do que estavam a ser cobertas pelas cantinas. É obviamente positivo que o governo esteja a redefinir o universo das pessoas carenciadas mas estes números denunciam a desadequação das cantinas à população necessitada levando-nos a perguntar qual seria, então, a fundamentação para a multiplicação e acção das cantinas. No primeiro impacto, o lançamento dos cestos de alimentos até soa a uma medida positiva. As pessoas passariam a levantar o seu cesto e, em casa, teriam a liberdade de fazer a comida. Mas coloca-se aqui uma espécie de nó górdio. De facto, os beneficiários destes cestos serão pessoas com um rendimento igual ou inferior a 201,53 € por critérios da Segurança Social. Ora, é indispensável apurar coisas elementares: essas pessoas têm casa? Terão frigorífico para guardar os congelados? Com aquele rendimento mensal, têm energia em casa? E tendo electricidade, disporão de logística mínima para cozinhar? Porque a pergunta geral que fica é se o governo, ao pensar nos cestos, terá equacionado toda a mecânica inerente à confecção dos alimentos. Quem, afinal, vai receber os cestos? E quem é que vai continuar a depender das cantinas. Vislumbra-se um processo de escolha dramático, de exclusão de uns para benefício de outros. É isto que queremos? 

As cantinas não são solução e só podem ser aceites na assunção de que são provisórias mas as cestas não parecem adequadas para resolver o problema e, no processo de transição, haverá que acautelar a substituição de um sistema pelo outro porque pelo caminho, de repente, pessoas haverá que ficarão sem cantina e sem cesta.

Não, definitivamente, esta solução não parece grande ideia. Se o governo projectou esta solução na expectativa de fundos europeus que chegarão, não se encontraria outra forma de aplicar esse mesmo dinheiro, uma via mais estruturante para ir mesmo erradicando o problema?

A situação é estrutural, gravíssima e dolorosa. O Relatório agora conhecido é um instrumento fundamental para avançar na erradicação do problema mas os cestos não configuram uma boa solução. O drama aumenta dizem os números, trata-se de uma tarefa gigantesca. Agora que se agarrou no assunto, talvez se pudesse reequacionar a oportunidade dos cestos.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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