Está aqui

Caminhando pelo “Respeito!”

Quando dizemos que “a lutar também estamos a ensinar” é exatamente esse o sentido educativo de que as conquistas se alcançam conquistando que queremos proclamar.

A Escola é um local de afetos, de amizades perenes, de sociabilização plena e multilateral. Partindo da intuição de Bernard Shaw quando diz que “a escola é um edifício com quatro paredes e o amanhã dentro dele”, a educação tem de ser pensada como ferramenta com alto potencial de construção da sociedade que preconizamos e a escola como instrumento socioformativo de promoção para a igualdade de oportunidades e inclusão das diversidades. É o garante da preservação de valores sociais, cívicos e culturais identitários de um povo, fiéis a uma memória e projetados num futuro evolutivo. É um espaço de mescla das diferenças onde se cruza a igualdade pela disparidade e a oportunidade pela felicidade. É um dos pilares do exercício da democracia.

A luta dos professores pela valorização social e salarial, pelo respeito profissional e pela dignidade da Escola Pública, da qual sinto imenso gosto de pertença e orgulho pela persistência, tem trazido para a praça pública todo este debate. Por isso, é que dizemos que “a luta em curso é uma lição para quem quiser aprender”.

Quando efusivamente proclamamos que “quem ensina a voar não pode rastejar” estamos a conferir relevo ao papel determinante dos professores, quando ensinamos conhecimento, quando educamos pelos valores e princípios do humanismo, quando formamos pela tolerância, pela inclusão da diferença, pela convivência da diversidade e pela aprendizagem da mundividência. Transportamos o horizonte de esperança e a confiança num mundo com liberdade para voar e para erguer bem alto as “asas do desejo”.

Quando dizemos que “a lutar também estamos a ensinar” é exatamente esse sentido educativo de que as conquistas alcançam-se conquistando, que queremos glorificar. A cidadania é a atitude basilar na modernização das sociedades, é a mola propulsora das práticas de democracia dinâmica e participada. Urge cultivar o debate de ideias, a altercação de ideologias, a contenda de conceções, como meio de acordar uma sociedade embalada pela inércia do entretém bacoco, do imediatismo populista apoiado nas redes sociais do efémero Like.

Todas estas pedagogas intervenções dos professores não são compagináveis com a burocratização de afazeres que estão instalados no sistema com o propósito de nos tornar executores de tarefas, numa versão moderna de “mangas de alpaca”. Deixem-nos ser Professores e focar toda a atenção nos alunos, razão de ser da nossa profissão.

Com o 25 de Abril e a consolidação da Escola Pública, retiramos o país do atavismo e dos vergonhosos índices de analfabetismo. Demos um enorme salto qualitativo de frequência da escola, de formação cívica, de nível académico. Esbatemos barreiras de discriminação social e económica, de género e de paridade, de proveniência e de identidade cultural. Formamos um povo com direitos, com oportunidades, com igualdade. É muito esta geração de professores, oriunda desse povo que tem fibra e é resiliente, que hoje protesta pela desconsideração do seu percurso profissional, que reclama por reconhecimento do seu valioso papel na formação de uma sociedade moderna e plural. Foram, e são, os professores os obreiros deste processo porque todos passam pelos bancos da escola e aí se formam enquanto pessoas e se preparam para o exercício das suas profissões.

Por isso, quando invocamos e exaltamos a palavra RESPEITO, ela exprime um sentimento coletivo de ingratidão pelas gerações de professores que criaram, consolidaram e consubstanciaram a Escola Pública e o que ela representa. É o desrespeito a que temos sido sujeitos, como mágoa social de um país que despreza quem alicerçou os seus fundamentos, que hoje se manifesta na rua com o vigor e a determinação acumulada por anos consecutivos de descontentamento e de desilusão. Anos prenhes de promessas ocas, de políticas vazias e de falsas expetativas.

Perante este processo reivindicativo nunca visto – no tempo, no modo e na adesão – o ministro responde com ausência de respostas, com a falta de propostas e com a desfaçatez de que tudo está a decorrer com normalidade e em negociação. Como é que um governo não reage, não cede, não percebe tamanha contestação? Será que julgam os professores como mentecaptos manipulados por estruturas sindicais ou políticas? Fiquem sabendo, sem retirar o papel crucial dos sindicatos, que este processo de luta entrou na pele e está no âmago dos professores. É fomentado no quotidiano das escolas, no debate permanente dos intervalos letivos, na mobilização inorgânica de saber juntar todos, na vontade pessoal e coletiva de fazer o cartaz, de encomendar a t-shirt, de entusiasmar mutuamente. Esta é a novidade e é com esta atitude que o governa não contava.

Como é que um governo não reage, não cede, não percebe tamanha contestação?

A imposição dos serviços mínimos, no mínimo duvidoso, elevou a discussão para um patamar muito mais vasto e que a todos passa a afetar. É o direito à greve, constitucionalmente consagrado, que está em causa. É a democracia, conquistada a muito custo, que está em causa. É a liberdade, garante da expressão dos direitos, que está em causa. Todos os democratas estão convocados.

Os professores, que em uníssono afirmam perentoriamente que “Não Param”, mantêm a luta com emoção e paixão sustentada numa racionalidade de estratégia, com a consciência de que o caminho é longo, tortuoso e arrojado, mas com a certeza de que “quem aprendeu a resistir, não pode desistir”. Por isso, caminhamos lado a lado sempre em frente, avaliando o melhor trilho em cada momento e a melhor ação em cada situação. Como disse Paulo Freire, “Ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar.”

Artigo publicado em publico.pt a 21 de março de 2023

Sobre o/a autor(a)

Professor. Dirigente do Bloco de Esquerda
(...)