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Burguesias às avessas

Para satisfazer interesses da burguesia e de corporações, o governo das direitas, que incentivaram esta burguesia a utilizar as ilhas como armas de arremesso nas suas disputas pelos recursos públicos e pelo reforço do seu poder, tornou-se o governo da burguesia de facto.

Não são de agora os conflitos entre o patronato regional, principalmente entre o patronato de S. Miguel e da Terceira. Esses conflitos foram adubados pela direita açoriana ao longo de vários mandatos de governos do Partido Socialista como mecanismo de oposição, na ausência de políticas alternativas substanciais a apresentar.

Por isso a direita que fomentou essas guerras (fundamentalmente o PSD e o CDS) prestou um mau serviço aos Açores e à autonomia. Essas disputas sobre acesso a recursos públicos e que alimentam velhas rivalidades que já deviam ter passado à história, é altamente prejudicial à unidade regional, tão difícil de construir e manter e que é essencial ao projeto autonómico.

É certo que existiram - e continuam a existir - muitas razões de queixa sobre políticas públicas e sobre os investimentos públicos nas diversas ilhas. No entanto, os trabalhadores e a generalidade da população nada ganha com essas disputas pois os seus objetivos são outros. Em regra elas versam, não sobre melhoria de serviços públicos, condições de vida ou investimentos estruturantes, mas sim sobre sobre a captação de recursos públicos para alimentar o patronato de cada uma das ilhas.

Se na oposição essas guerrilhas eram úteis à direita, agora no governo ficam claras as contradições que criaram e os problemas que geram à governação da região. Na verdade, há vários governos regionais - e não falo da divisão partidária de acordo com os partidos que formam o governo - falo dos diferentes interesses instalados e corporativos de várias ilhas, com enorme influência, sobre vários departamentos do governo.

Para satisfazer interesses da burguesia e de corporações, o governo das direitas, que incentivaram esta burguesia a utilizar as ilhas como armas de arremesso nas suas disputas pelos recursos públicos e pelo reforço do seu poder, tornou-se o governo da burguesia de facto.

Os sintomas desta guerrilha permanente estão claros e as suas consequências perdurarão no tempo. No processo das infames agendas mobilizadoras foi óbvia a disputa entre câmaras de comércio pela liderança dos projetos que se desenvolveram com o patrocínio do governo regional.

Agora, a atribuição de fundos comunitários por “aviso convite” à câmara de comércio de Angra para uma suposta promoção do destino Açores fez o patronato de S. Miguel (e não só) protestar.

Na verdade não me parece que discordem da natureza do apoio, acham é que também devem receber o mesmo apoio ou então que deve ser outra entidade privada a receber, no caso a Associação de Turismo dos Açores.

Estas disputas das burguesias procuram arrastar a generalidade da população para uma guerra que não é sua. Estas não são as lutas dos trabalhadores de S. Miguel, da Terceira ou de qualquer outra ilha. As disputas entre burguesias em nada procuram atender às necessidades da maioria das pessoas.

A luta do povo das nossas ilhas não é nem pode ser a luta das burguesias. A luta do povo destas ilhas só pode ser feita em unidade e solidariedade por melhores condições de vida e de trabalho, rejeitando as divisões de que a direita se alimentou.

Só a esquerda pode responder a esse desígnio, porque a direita e esta burguesia que a sustenta, só fomentam a desunião das ilhas para aumentar a exploração.

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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