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Brutalidade do aumento dos preços dos transportes representa novo imposto

O Governo prepara-se agora para o maior aumento dos preços de transportes de sempre. E já avisou, pode bem não ficar por aqui. Tenha o Governo uma certeza: a contestação popular também não vai ficar por aqui.

Falta uma semana para entrar em vigor o novo plano de transportes e os novos tarifários dos transportes públicos e o Governo pouco ou nada diz. Tudo o que sabemos é que os preços vão aumentar. E vão aumentar muito. Não só nunca foi tão caro andar de transporte público, como nunca pesou tanto nos encargos mensais das famílias. Os portugueses já são dos que mais pagam pelos transportes públicos na Europa: o passe social pesa o dobro nos rendimentos médios do que pesa em Bruxelas ou Atenas e o Metro de Lisboa é mais caro, em valores absolutos, do que o metro de Roma. Mas para o Governo o caminho é aumentar.

Uma família com o salário médio em Portugal, 700 euros mês, os últimos aumentos anunciados, ficará a gastar agora mais 60 % em transportes do que gastava apenas há um ano. Pai, mãe e dois filhos que habitem no centro de Lisboa gastam mais 36€ por mês em transportes. Se tiverem de se deslocar de Sintra para Lisboa ou da Póvoa do Varzim para o Porto o encargo mensal aumenta mais 100 euros. É incomportável.

Aumento de 40 por cento no Metro de Lisboa. Aumento de 80 por cento em 12 meses nos passes 4-18, sub-23 e Sénior.

O Governo diz que vai criar um novo desconto no passe social para os reformados e crianças que viajem fora das horas de ponta. A novidade é apresentada como uma boa nova proposta pelo Governo. O que este se esquece de dizer é que, com a redução do apoio nos passes 4-18 e sub-23, ir para a escola de transportes públicos ficou 80% mais caro desde que PSD e CDS estão no poder.

Façamos as contas. Uma família de Lisboa com uma criança na escolaridade obrigatória, que pagava 14 euros pelo passe social no final do último ano letivo, daqui a sete dias vai precisar de despender 26 euros e 25 cêntimos. Se viver na Amadora e, como acontece com tantas famílias, a criança estudar perto do trabalho dos pais, deixou de pagar 25 euros para passar a gastar 45 euros.

O Governo pode inventar os nomes que entender, mas a brutalidade destes aumentos representa um novo imposto para diminuir ainda mais o rendimento disponível de quem já é fustigado por todo o tipo de medidas de austeridade.

Mas não é só o aumento de preços que choca. O bom senso parece uma matéria rara no ministério da Economia e dos Transportes. Só assim se compreende o peregrino desconto para as crianças que viajem fora das horas de ponta. Acaso nunca passou pela cabeça do ministro Álvaro que, fora das hora de ponta, os jovens estão na escola? Que a sua deslocação, de e para a escola, ocorre nas horas de ponta. É suposto o quê? As crianças saírem em bando da escola e irem a correr para o autocarro aproveitar as horas mais baratas para se irem encafuar num centro comercial? Ou, quem sabe, irem à praia?

O problema dos transportes não é a sua frequência, nem o preço dos bilhetes, que é mais caro do que na maioria das cidades europeias com muito maior poder de compra. É a dívida. É a dívida resultante de anos e anos de subfinanciamento e do Estado pagar mal e a más horas.

São 19 mil milhões de euros em dívida que custam anualmente a cada empresa cerca de 153% do que gastam em salários. Os juros da dívida pesam nas empresas uma vez e meia o custo do trabalho. Em 2010, os últimos dados disponíveis, mostram um resultado operacional negativo do conjunto das empresas públicas de transporte de 900 milhões de euros. Destes 730 Milhões de euros são em juros da dívida. Mais de 80%. Sobre a dívida o Governo nada diz mas sobre a dívida o Governo não tem ideia nenhuma. Os juros que as empresas de transportes pagam são como o elefante no meio da sala que o Governo finge não ver enquanto usa a dívida como desculpa para aumentar preços, diminuir serviço, despedir trabalhadores. Mesmo nas contas otimistas do governo, feitas por quem acredita com uma fé que nenhuma razão explica que os utentes se vão manter os mesmos mesmo a pagar mais e a ter menos serviço, mesmo nestas contas irreais, o Governo julga alcançar apenas uma poupança de 485 milhões de euros. Pouco mais de metade do que custaram, os juros da dívida em 2010. Uns ridículos 2,5, da dívida. Ou seja, o Governo não tem nenhuma ideia sobre transportes.

O desmazelo com que o Governo aumenta preços e diminui carreiras necessárias para o dia-a-dia de milhares de pessoas é confrangedor. Dizia esta semana o secretário de Estado dos Transportes, no fórum de uma rádio, “Uma vez saí da secretaria de Estado e vi vários autocarros que não tinham mais de 3 pessoas. Bem sei que era tarde mas temos de combater este desperdício”.

É assim, com base no olhómetro, de quem saiu à hora errada no dia errado, que o Governo avança com os seus planos e sobre tudo e sobre todos. Azar o dos lisboetas com os horários do secretário de Estado. Tivesse saído a outra hora, e, quem sabe, o Governo ainda aumentava o número de autocarros.

O Governo encomendou um estudo a vários especialistas para proceder a uma reorganização dos transportes públicos em Lisboa e no Porto, mas na verdade não era preciso tanto. O único objetivo é cortar. Cortar o número de autocarros, metros ou comboios. Cortar na qualidade e frequência dos transportes. Cortar nos horários e na área coberta pelos autocarros. Cortar em tudo menos no preço. Aí o Governo só conhece um caminho. Para cima e em força.

Depois de algum recuo nos cortes de ligações no inenarrável estudo, e com medo da contestação popular que se fez e faz sentir, o Governo prepara-se agora para o maior aumento dos preços de transportes de sempre. E já avisou, pode bem não ficar por aqui. Tenha o Governo uma certeza: a contestação popular também não vai ficar por aqui.

Declaração política da deputada Catarina Martins na AR a 25 de janeiro de 2012

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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