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Brincar com o fogo

A tentativa de apropriação do descontentamento por parte da extrema-direita portuguesa é um facto e não matéria de opinião. Isso não é uma novidade, mas é preocupante.

Não direi palavras de repúdio por quem tem dificuldades em chegar ao fim do mês com as contas pagas. Quem nunca viveu em dificuldade tem, certamente, uma enorme capacidade de solidariedade e de mobilização por quem pouco ou nada tem, mas dificilmente saberá a dura realidade de como é quando quase tudo falta. Falo disto a propósito da recente manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Haverá na gente que se mobilizou muita gente que não sabe o que é viver sem dificuldades. Preocupa-me a sério que não haja respostas ou que estas pessoas não vejam as respostas que poderão existir, mas custa-me tremendamente ver essas dificuldades serem aproveitadas seja por quem for.

A tentativa de apropriação deste descontentamento por parte da extrema-direita portuguesa é um facto e não matéria de opinião. Isso não é uma novidade, mas é preocupante. Temos visto isto a acontecer em muitas partes da Europa onde os vazios gerados pelo sistema têm vindo a ser paulatinamente ocupados pela extrema-direita. As forças políticas democráticas não têm sido capazes de dar uma resposta adequada e isso tem de fazer-nos reflectir muito e a sério. Mas, em Portugal, não foi apenas a tentativa de apropriação e de utilização do descontentamento alheio que me causou preocupação. Foi, sobretudo, o aparato criado e a promoção - sim, promoção - desse aparato. As reivindicações contavam com propostas como o fim das pensões vitalícias dos deputados ou dos ministros. As dos deputados já terminaram felizmente há bastante tempo e as dos ministros nunca existiram, mas na cobertura que foi feita só se referiam as reivindicações e nunca o facto de já estarem cumpridas ou de nunca terem existido tais regalias. Além disso, os meios dedicados a garantir que todos os segundos seriam cobertos diz muito, sobretudo quando a maioria das reivindicações cidadãs passa ao lado de qualquer cobertura.

De quem ajuda a formar opinião espera-se mais. Espera-se profissionalismo, mas também rigor. Um bocadinho na linha do que circulava num meme. Se alguém que dá a notícia pergunta a duas pessoas que tem ao lado se está a chover e uma pessoa diz que sim e a outra diz que não, não basta reproduzir o que diz cada uma das pessoas, é preciso abrir a janela e ver se lá fora chove ou não.

Há necessidade de derrotar o sistema vigente ou a corrupção ou de considerar outras questões fundamentais para a nossa vida comum? Sim, claro que sim. Agora vamos ao que propõem os organizadores dos coletes amarelos. Creio que não será com a redução do parlamento a 60 deputados que resolvem os problemas que enunciam. Quem está contra o sistema não pode estar contra a diversidade e a pluralidade democráticas. Reduzir o parlamento a 60 deputados é precisamente o contrário disso: é garantir que só os partidos do sistema terão assento, os mesmos que tantas contas têm a prestar em matéria de corrupção ou de má gestão dos dinheiros públicos. Para combater a corrupção são medidas concretas e não apenas declarações de intenções. Da mesma forma, o aumento dos salários não poderá ser feito através do corte nas pensões.

Dito tudo isto, não me deixo igualmente iludir com o aparente fracasso da primeira manifestação. Há muito tempo que anda muita gente neste país a tentar brincar com o fogo. Com tanto esforço, será difícil que um destes dias não nos queimemos a sério.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 23 de dezembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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