Bons Samaritanos

porMarisa Matias

21 de julho 2019 - 16:51
PARTILHAR

A verdade crua é que, ao não alterar as regras de asilo, toda a União Europeia é cúmplice de Salvini. Salvini agradece que se continue a dar-lhe tanta atenção e os restantes agradecem a nossa falta de exigência humanitária.

O alemão Dariush Beigui que, nos tempos livres, utilizou o seu barco ou comandou tripulações de outros barcos para salvar vidas no Mediterrâneo. Beigui é um dos 10 que enfrentará a justiça italiana, numa situação similar à de Miguel Duarte, cujas sentenças poderão ir até 20 anos de prisão. Em entrevista, Beigui afirmou que é difícil haver mais malícia do que a que está presente quando se impede alguém de salvar vidas. Tem razão. Aqueles que não querem salvar vidas não devem poder impedir quem o quer fazer. Nas pessoas que salvou, ele viu o que seria estar em desespero, a lutar pela vida, e ninguém querer ajudá-lo.

Nos últimos meses muitos olhos se viraram para os activistas que estão a ser perseguidos. Como escreveu Esther King, a União Europeia está a levar “os bons Samaritanos a Tribunal” e muitos começam a perguntar-se: quem salva os salvadores? Mas esta maior atenção converteu-se em mais empatia com os que procuram ser salvos? Regresso às declarações de Beigui e há uma que retenho. Ele disse estar a milhas de distância do pensamento de Salvini, mas que o que Salvini faz é explorar a ideia correcta de a Europa virou as costas a Itália e, com isso, lava as suas mãos.

Tem razão Beigui. Estamos a afundar-nos em hipocrisia. Recentemente a cidade de Paris concedeu cidadania honorária a Carola Rackete e Pia Klemp, duas salvadoras de vidas, mas, no dia 12 de Julho, cerca de 700 requerentes de asilo ocuparam por algumas horas o Panteão de Paris, numa tentativa de reconhecimento do seu estatuto, e a mesma cidade cidade de Paris fechou os olhos. Há dois pesos e duas medidas, sem dúvida, e este exemplo é apenas a ponta do icebergue das contradições.

No relatório da Oxfam, publicado no dia 19 de Julho, são denunciadas várias irregularidades cometidas na fronteira entre França e Itália. Os migrantes e refugiados são detidos em contentores durante a noite, muitas vezes sobrelotados, sem acesso a camas, comida ou até mesmo casas de banho. Os testemunhos incluem o adolescente da Nigéria, requerente de asilo, a quem “alteram” a idade para retirar a possibilidade de preencher os formulários ou a mulher do Senegal que ficou mais de nove horas e a quem foi negado auxílio médico. A estes migrantes ou requerentes de asilo as autoridades francesas acabam por reenviá-los a Itália. Macron, o grande defensor da “coligação progressista europeia” contra a extrema-direita, afinal, não difere muito de Salvini no que toca à política de migração. A verdade crua é que, ao não alterar as regras de asilo, toda a União Europeia é cúmplice de Salvini. Salvini agradece que se continue a dar-lhe tanta atenção e os restantes agradecem a nossa falta de exigência humanitária. Ponhamos, por isso, os olhos em todos nós em todas as pessoas que nos enchem de orgulho por salvar vidas e nas vidas que elas procuram salvar. Seremos nós também capazes de ser bons Samaritanos?

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 20 de julho de 2019

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
Termos relacionados: