Como temos todos um pouco de vergonha na cara, não damos como exemplo aos nossos filhos um futebolista. Para além do eventual elogio à habilidade com os pés, ganham somas escandalosas, os que atingem os sete dígitos deviam ter algum pudor e não se deviam eximir a pagar os impostos que os mortais (os que auferem quatro dígitos ou menos) pagam. As palavras do Primeiro-Ministro legitimam tudo isto. São imorais e mesmo os fãs de CR7 devem ter sentido como afinal são inúteis o esforço e a honestidade num país cujo Primeiro-Ministro tem uma escala de valores de tal natureza.
No tempo em que eu era pré-adolescente, procurava-se na leitura de biografias de grandes figuras da história, da cultura e da ciência, exemplos para a vida. Lembro-me de Marie Curie, de Robert Scott ou Vasco da Gama. Através do relato das suas vidas procurava-se incutir o desafio intelectual, a resiliência, a alegria, a audácia e o estímulo que a secura dos currículos escolares não proporcionava. Esses relatos, levavam-me do meu quarto aos confins da Terra; as descrições fantásticas de Homero ou Júlio Verne faziam-me acreditar que eu também poderia vestir aquelas peles, navegar por mares repletos de figuras mágicas, de ver a Terra do ar ou descer até ao magma. Como aconteceu com outros jovens, estes exemplos foram criando um lastro de ambição, abertura à experiência, gosto pelo desconhecido, consideração por terceiros, vencer sem abalroar e sem alianças suspeitas. Essas leituras soam-me muito distantes hoje, mas a sua mensagem terá perdido valor? Elas forjaram gerações e convicções éticas e intelectuais que inevitavelmente repudiam a mediocridade de certas opções.
A literatura e o conhecimento da história foram, vida fora, revelando outras realidades e exemplos, bons e maus. Mas em nenhum cenário havia futebolistas, insaciáveis no ganho, forjando alianças com multimilionários e políticos muito pouco recomendáveis. Referir como modelo aos seus compatriotas alguém com uma prática comportamental altamente duvidosa é de gosto muito suspeito. Com a opção pelo modelo futebolístico, o Primeiro-Ministro atirou os portugueses para um ranking impensável, rebaixou-os.
Já nos anos sessenta, entre leituras muito diversificadas, também me lembro do Eusébio a enlouquecer os estádios, endeusado por locutores que tão bem serviam o regime. Mas não me recordo de nenhum ministro do antigo regime dirigir-se ao país, que é sempre um momento sério seja ou não dia de Natal, aconselhando os concidadãos a seguir o exemplo do futebolista, possa ele descansar em paz! Os assessores do actual Primeiro-Ministro não dispunham de outros exemplos, um escritor, um cientista, uma figura das artes?! Uma voltinha pelo Panteão talvez tivesse sugerido alguma figura ímpar, mas que sabem disso?! É o cheiro do dinheiro em directo, em horário nobre e em canal público.
Não, o Primeiro-Ministro preocupou-se em passar uma mensagem popularucha, fácil explicando assim, naturalmente, a falta de elevação. Uma imagem de captura imediata, sem esforço, exactamente o oposto à mensagem que pretendia transmitir, omitindo que “nem tudo o que brilha é ouro”. O Primeiro-Ministro escolheu mal o exemplo, misturou esferas que para nosso bem devem permanecer distintas, desconsiderou e desclassificou os compatriotas, desceu a fasquia a níveis impensáveis, não prestou bom serviço ao país. Contribuiu para um verdadeiro apagão do que de melhor nós temos. Imperdoável.