A vitória de Cavaco Silva nas eleições presidenciais é uma evidência. Embora reeleito com a maior abstenção de sempre e com menos votos que no ano passado, Cavaco é de novo Presidente da República, sem segunda volta.
Isso faz de Cavaco um presidente de primeira escolha? Certamente que não. Entre todos os eleitores em Portugal, só metade foi votar, e apenas metade dessa metade votou em Cavaco. É uma vitória legítima, e uma derrota para a esquerda, mas pouco consensual.
Como um verdadeiro estadista, Cavaco discursou vitorioso do alto da tribuna e, sem cumprimentar adversários, distribuiu recados aos responsáveis da campanha “caluniosa” de que foi vítima: “Era bom para a nossa democracia, para o funcionamento do sistema, que os seus nomes fossem conhecidos”. E, como democrata que é, saiu sem responder a perguntas dos jornalistas.
Não é difícil perceber a irritação do actual Presidente ao ver as negociatas com os seus amigos do BPN expostas nos jornais, mas pensava eu que o hábito de pedir nomes se tinha perdido há 37 anos. Invocar o argumento democrático para o fazer é sem dúvida uma inovação.
Cavaco Silva falou ainda em “magistratura activa” e até apresentou uma espécie de programa, o combate à dívida e ao desemprego, como se não fosse o desemprego mais uma consequência das políticas de austeridade com que compactuou. Como se coubesse ao Presidente da República a gestão do país, cargo para o qual não foi democraticamente eleito.
Não me lembro de ver o candidato Cavaco tão preocupado com o estado da nossa democracia quando se recusou a responder sobre o seu envolvimento em negócios obscuros com o gang BPN, ou quando chantageou os eleitores com a ameaça da subida dos juros e uma crise económica se não fosse eleito à primeira volta.
Não vejo o agora presidente especialmente preocupado com a democracia, quando se prepara para abrir as portas do governo a uma coligação PSD-CDS, e as do país ao FMI - e não há neste momento maior ameaça à nossa democracia e auto-determinação. As medidas que o FMI irá impor, em troca de um empréstimo a taxas não muito diferentes das do mercado, não vão acrescentar nada ao que conhecemos, só mais austeridade. Com uma diferença, esta austeridade não será sufragável, uma vez que o FMI não é uma instituição democrática.