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Bolsonaro, crime contra o povo

Negar a existência de coisas que estão perante os nossos olhos, sejam as alterações climáticas ou uma pandemia viral, pode parecer simples loucura mas é uma escolha deliberada, consciente e política.

Nos últimos anos vimos a ascensão de políticos negacionistas ao poder em vários países. As evidências científicas dizem-lhes pouco e menos ainda quando contrariam as suas narrativas mais ou menos místicos sobre as soluções para os problemas sociais. Negar a existência de coisas que estão perante os nossos olhos, sejam as alterações climáticas ou uma pandemia viral, pode parecer simples loucura mas é uma escolha deliberada, consciente e política.

Presidentes como Trump e Bolsonaro escolhem negar verdades desconfortáveis porque elas desmontam o seu discurso radical ultra-simplista que atribui as culpas de tudo aos imigrantes, aos gays, aos estrangeiros. Mas também porque lidar com essas verdades implica confrontar interesses económicos que esses líderes querem proteger.

Negar a emergência climática permite a Bolsonaro manter práticas selváticas de extração mineira e produção agrícola que destroem a Amazónia com recurso a mão de obra quase escrava e consomem todos os recursos naturais. Da mesma forma, negar a ameaça de um vírus altamente contagioso permite a Trump não se contradizer sobre a (não) necessidade de um serviço público de saúde nos EUA e manter a aparência de um gigante económico que resiste ao “vírus chinês”.

Se fossem líderes de uma seita, no máximo poderíamos acusá-los de fanatismo. Mas enquanto chefes de governo são criminosos a soldo. A soldo porque o sistema capitalista convive bem com este fanatismo e agradece a proteção de setores de acumulação privada em setores tão sensíveis como o ambiente ou a saúde. E criminosos porque o seu negacionismo destrói a vida de milhões de pessoas.

Mas há limites. Quando depois de 70 dias de “atraso, negação e disfuncionalidade”, finalmente Donald Trump se declarou como “presidente em tempos de guerra”, os EUA já estavam “a caminho de ver mais mortos do que nas guerras da Coreia, Vietnam, Afeganistão e Iraque combinadas.

Só no Brasil, um país continental com 13,5 milhões de pessoas em pobreza extrema, Jair Bolsonaro parece não ter limites. Aliás, o Presidente para quem isto não passa de uma “gripezinha” quis demitir o Ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, por defender o isolamento social. Para o seu lugar foi equacionado Osmar Terra, para quem "os países que radicalizaram na quarentena tiveram aumento de casos"… e sabe-se lá o que pensará sobre a forma da terra.

Qualquer país com a fragilidade económica do Brasil tremeria perante a necessidade de responder a uma pandemia desta dimensão. A única medida conhecida para conter o vírus é o isolamento social e isso obriga a um investimento massivo para que milhões não morram de fome. O Brasil não tem política para pagar a milhões em casa ou na favela, a pandemia faz cair a máscara do recuo do estado social.

Mas a alternativa é deixar que os mesmos e outros tantos milhões morram doentes. É que por isso que Mandetta tem o apoio dos 27 governadores estaduais, todos favoráveis ao isolamento. E dos presidentes das duas Câmaras, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, além do líder do Supremo Tribunal Federal. É por isso que foi isolado pelos militares, outro pesadelo.

Uma coisa é um país ter dificuldades em responder a uma pandemia de um vírus altamente contagioso e letal. Outra, completamente diferente, é não querer fazê-lo e deixar morrer gente por fanatismo.

É por isso que, no Brasil, Bolsonaro está a cometer um crime contra o povo e deve ser afastado do poder.

Artigo publicado no jornal “I” a 9 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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