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Bolhão, para sempre

A tradição 2.0 esperou quatro anos e meio para voltar a receber aqueles que não desdenham viver de novas rotinas para velhos hábitos.

A tradição 2.0 esperou quatro anos e meio para voltar a receber aqueles que não desdenham viver de novas rotinas para velhos hábitos. O Mercado do Bolhão, esquecendo os domingos, reabriu ontem e para sempre. Segunda a sábado, das 8 às 20.

O perfume que lembro como mágico, o da concorrência poética dos cheiros entre as bancas que já à distância nos diziam ao que vinham pelas cores ou pelos sons adivinháveis em família versus nome e entoação que habitavam cada esquina, voltam todos e de uma vez. Que enorme fortuna, esta, a de voltar a uma casa que não perdeu o respeito pela sua dimensão simbólica e que ensaia um regresso em apoteose de recomeço. Nuno Valentim, arquitecto-autor da reabilitação do edifício, sabe e assegura que "o projecto não é redentor, não faz tudo sozinho". É assim que o edifício-praça está de volta e os melhores pregões clamam por gente.

Comprar no Bolhão convoca um conjunto armadilhado com memórias doces e sai mais barato pelo desafio. Desde 1917, dar a volta àquela espécie de quadrado-quarteirão permitia o transporte para o carácter identitário e diferenciador da cidade. Lá, ontem como hoje, o coração na boca, sangue; as flores ao olhar, rebento; o peixe iridescente, escamas. São diferentes as camadas de vida. A solidez contemporânea do edifício faz o "porto-match" com a memória. Todos aqueles que voltaram, sustidos por quatro anos no Mercado Temporário do centro comercial "La Vie" onde receberam perto de 6,5 milhões de pessoas, foram dignos vendedores de resiliência ao freguês. O verdadeiro rasgão cultural do até então "Grand Plaza", fez-se com eles, os que herdaram uma praça a céu aberto do século XIX, a edificaram desde 1914, a habitaram até 2018 para quase a perderem durante aqueles anos em que os interesses imobiliários tentavam despejar a alma do Porto a pontapé para construir lojas e habitações de luxo no apogeu do parolismo sócio-cultural do consulado de Rui Rio na cidade. Resistiram. Esperaram. E regressam agora, quase 80, na obra mais emblemática e perene de Rui Moreira na cidade. É precisamente a eles, portadores, que a cidade presta justa homenagem ao voltar, assim, portas adentro.

O Bolhão, a ser como sempre foi, conseguirá a tradução de inúmeras linguagens e motivações. Será o albergue de passeantes, uma fonte vital de orgulho, a montra panóplia das gentes, o pedaço em cheio de uma cidade. No Porto, vai marcar uma era que não se esgota e que nos diz ser para sempre. Assim saibamos tê-lo de volta e gabá-lo a cada instante como num acto de amor.

Artigo publicado no Jornal de Notícias” em 16 de setembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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