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Bate, bate coração

O pedido de empréstimo é oportunista, a cedência era escusada. O coração de D. Pedro jazia sossegado naquela poção para a conservação (quase) eterna à guarda da Igreja da Lapa, no Porto com certeza.
Amor de Perdição, intervenção de conservação e restauro do manuscrito de Camilo Castelo Branco - imagem da Biblioteca Nacional https://purl.pt/

O coração de D. Pedro jazia sossegado naquela poção para a conservação (quase) eterna à guarda da Igreja da Lapa, no Porto com certeza. A maior parte dos portugueses, mesmo dos portuenses, não saberiam ou não dariam muita atenção. Uma relíquia mostrada em altura própria cada ano. Não acho isto interessante, nunca perderia um minuto a procurar vê-la ou a pensar no assunto. A minha memória de D. Pedro tende mais a lembrá-lo na luta contra os absolutistas, é neste balanço entre liberdade e autoritarismo que me interessa conhecer D. Pedro e o seu tempo.

O pedido de empréstimo é oportunista, sim. Bolsonaro não sabendo como vai comemorar os 200 anos de país livre, imaginou que uma relíquia lhe poderia trazer votos lá mais para diante, sempre pode tocar o coração de alguns milhares de brasileiros. Estamos todos para ver se os brasileiros se comovem. O motivo é oportunista, o tempo é oportunista, tudo calculado.

Se os brasileiros engolem o isco, não importa agora, estou mais preocupada com a ligeireza que o pedido (e disponibilidade da cedência) revelam e fundamento as minhas razões.

Tive a oportunidade profissional de coordenar a intervenção de conservação e restauro do manuscrito do Amor de Perdição de Camilo que é propriedade de uma instituição brasileira. Por causa da metáfora dos países irmãos, foi decidido que a intervenção deveria ser feita em Lisboa por técnicos reconhecidos. Assim se começou a preparar o processo e uma das primeiras etapas era tratar dos seguros. Não se manda um manuscrito daquela grandeza viajar (ou qualquer bem patrimonial) sem garantir os devidos seguros. Às vezes não é fácil, as seguradoras locais podem não ter capacidade financeira, e as instituições detentoras do património vêem-se na necessidade de procurar seguradoras internacionais bem mais capacitadas. É sempre um processo lento que exige avaliações, papelada, muita burocracia mas que se faz porque ninguém quer ter um dissabor. Por acaso o roubo das jóias da coroa portuguesa em Haia em parte por incúria nossa, não provocaram nenhum dissabor…mas nem sempre se tem um conservador bem colocado politicamente.

Voltando ao manuscrito. Era, portanto, preciso tratar do seguro. Muitos emails, muitos contactos, não tínhamos uma data para chegada do manuscrito, desconhecíamos como chegaria. Tudo muito stressante. Mas eu conto: chegou um belo dia, no bolso do casaco do responsável máximo da dita instituição que não tinha o estatuto de courier, ignorava o que isso fosse e que, portanto, não tinha declarado o bem patrimonial às autoridades competentes nem no Brasil nem em Portugal, sem seguro, ao natural. Com a bonomia dos irresponsáveis, depois dos cumprimentos de ocasião, o dito dirigente sacou do bolso o manuscrito e pousou-o na minha secretária. Demorei uns instantes a deglutir a situação.

Quando se celebraram os 500 anos da descoberta do Brasil, a Carta de Pero Vaz de Caminha foi emprestada ao Brasil. Saiu da Torre do Tombo a caminho de Terras de Vera Cruz e por lá esteve enquanto duraram as festividades. Findas estas, a sua devolução não foi pacífica que os “nossos irmãos” achavam que a Carta bem podia ficar pelo Brasil. Não me recordo de pormenores mas ainda deu saga. A Carta tem um valor histórico indiscutível, é uma peça da nossa história, aquela exactamente que nos colocou na senda do “país irmão”. Lá veio, está bem guardada na Torre do Tombo.

Arrepiam-me estas lembranças quando penso na relíquia agora prestes a embarcar para o Brasil. Carecia? O Estado Bolsonaro é fiável? Que valor real tem um contrato nas mãos daqueles governantes? Tudo pode acontecer inclusive o regresso do coração sem mais palpitações.

Ah, devo dizer que o Amor de Perdição ficou impecável, trabalho de uma grande equipa. Foi devolvido de acordo com todos os cuidados, observado e muito celebrado pelos cariocas.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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