Basta de mentiras

porLuís Leiria

17 de outubro 2013 - 0:09
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O governo decretou a novilíngua, em que todas as palavras significam o seu contrário.

Os embustes do governo de Passos Coelho e Paulo Portas acumulam-se a uma rapidez tão alucinante que por vezes somos acometidos por uma sensação de irrealidade. “Será mesmo possível?”, pensamos. “Não há limites para o descaramento?”, questionamos. Será que subitamente, sem darmos por isso, fomos todos transferidos para um mundo onde tudo funciona às avessas?

Já poucos recordam, mas no dia 30 de julho, há menos de três meses, foi aprovada na Assembleia da República uma moção de confiança ao governo.

Exigida por Cavaco Silva depois da crise provocada pela “demissão irrevogável que foi revogada” de Paulo Portas, o governo pediu a confiança do Parlamento para “projetar um novo ciclo, sustentado, de desenvolvimento e crescimento”.

A visita da troika foi adiada, e durante dois meses, até às eleições autárquicas, o governo esforçou-se por fazer passar a ideia de que a austeridade tinha chegado ao fim, que os limites do sacrifício tinham sido atingidos, que Pires de Lima entrara no Ministério da Economia para liderar o “novo ciclo”, e que os portugueses podiam, finalmente, respirar aliviados.

Apesar de a mentira não ter evitado a hecatombe laranja nas eleições, o certo é que esta teria sido muito pior se os eleitores já soubessem que, como advertiu João Semedo no debate da moção, o "novo ciclo" de Passos Coelho era uma ficção para mascarar a velha austeridade.

O Orçamento apresentado esta terça-feira esquece o “novo ciclo”, aprofunda a “velha austeridade” e terá efeitos recessivos arrasadores. É uma declaração de guerra, um ataque de choque e pavor contra todos os que vivem do seu trabalho, contra os pensionistas e reformados, contra os desempregados.

A famosa distopia “1984”, romance de George Orwell, foi publicada em 1949. Ao ouvir os senhores Passos e Portas, os deputados das bancadas do PSD e do CDS e os ministros, parece-nos que o mundo do Grande Irmão (a troika) foi tornado realidade. Temos o Ministério da Verdade que propaga todas as mentiras. Temos o Ministério da Fartura, dirigido por Pires de Lima, que se dedica a empobrecer o país. Temos o Ministério do Amor, que se dedica a promover a guerra contra mais de 90% da população portuguesa. O governo decretou a novilíngua, em que todas as palavras significam o seu contrário.

A irrealidade, porém, mora apenas nos palácios de Belém e de S. Bento. No país real, reina o empobrecimento. Das ruas virá a resposta. Para combater a novilíngua, uma palavra é suficiente: Basta!

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net
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