Barbacena fechou

porCarlos Carujo

29 de maio 2026 - 13:55
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Barbacena tornou-se o nome do chamado "Holocausto Brasileiro" cujas imagens e descrições não deixam ninguém indiferente. “Holocausto brasileiro” é o nome do famoso livro, e posteriormente do documentário, que denunciaram a instituição que deixou para trás cerca de 60.000 mortos. Milhares e milhares viveram e morreram aí em condições mais que deploráveis.

Barbacena fechou. Li a frase direta no Twitter e teve aquele efeito de me desconcertar por instantes. Que Barbacena para mim não podia ter fechado.

Explico. Barbacena para mim são duas coisas. A que me vem logo à cabeça, por definição, não fecha. É a vila do Alentejo onde os meus pais nasceram. São memórias, de infância sobretudo, momentos, família. Pessoas, lugares e vida. Nada disso pode fechar.

Para mim, Barbacena é ainda uma segunda coisa. Só que essa pensava que tinha fechado há muito. Barbacena tornou-se o nome do chamado "Holocausto Brasileiro" cujas imagens e descrições não deixam ninguém indiferente.

A cidade brasileira ficou com o nome do nobre português que detinha o título da vila alentejana e que foi um dos responsáveis pela repressão da inconfidência mineira que, no final do século XVIII, lutou pela independência de Minas Gerais. Bastante mais tarde, em 1903, aí foi criado um manicómio, classificado como "hospital colónia", que se transformou no maior depósito de indesejados do país. Muitos eram, claro, doentes mentais. E foi mais uma prova extrema de como estes foram mal tratados neste tipo de instituições um pouco por todo o mundo ocidental. Mas também, e na sua esmagadora maioria, eram pessoas sem qualquer diagnóstico de doença mental: com deficiência, sem abrigo, homossexuais, mulheres que desafiaram, de alguma forma, as normas sociais da época, até ativistas políticos incómodos.

Holocausto brasileiro é o nome do famoso livro, e posteriormente do documentário, que denunciaram a instituição que deixou para trás cerca de 60.000 mortos. Milhares e milhares viveram e morreram aí em condições mais que deploráveis.

Afinal, foi mesmo esse que só fechou esta semana. Um encerramento simbólico já que tinha atualmente apenas uns poucos pacientes em condições não comparáveis com as que existiam na década de 1980.

Para trás fica um terror que não pode ser esquecido. Mas, à nossa frente, continuam a haver desafios significativos nas formas como nos relacionamos com a doença mental e a neurodiversidade.

Por exemplo, a este propósito, há quem denuncie que "comunidades terapêuticas" que seguem o modelo maniconomial e funcionam sem qualquer base científica, continuam, neste mesmo estado brasileiro, a receber apoios públicos.

Aquela Barbacena fechou. Outras, noutras escalas, haverá para fecharmos.

Carlos Carujo
Sobre o/a autor(a)

Carlos Carujo

Professor.
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