A balada de Nan Goldin

porJosé Soeiro

03 de dezembro 2022 - 22:42
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Numa crua etnografia visual, o desejo libertário e os espaços de liberdade conviviam já, nesse período pós-Stonewall, com a sida, o medo, a doença, os parentescos de cuidados retratados nos pequenos gestos e fundamentais presenças, em comunidades de afinidade afetiva.

Isto foi em 2002, em Serralves. Ainda na saudosa direção artística de João Fernandes, num tempo em que o puritanismo, mesmo que dissimulado, não tinha ali espaço e em que era inimaginável censurar fotografias (como veio a acontecer depois, no mesmo Museu de Serralves, com a exposição de Mapplethorpe). Vinha ainda longe a supressão das entradas gratuitas no Museu em todos os domingos. Parecia existir um entusiasmo recíproco entre o museu e a cidade (e os seus habitantes e as escolas e os seus estudantes…). Um outro tempo, portanto.

Nan Goldin está aí outra vez, no Porto e em Lisboa. É mais que justa a homenagem que, por iniciativa de João Sousa Cardoso, é prestada por estes dias à fotógrafa que queria ser cineasta. Por ela, claro, mas porque esta estadia é acompanhada de uma programação que permite ouvi-la sobre fotografia, sobre aqueles anos, sobre os amigos que perdeu para a sida e com quem não pôde envelhecer mas que as fotografias mantêm vivos, sobre o ativismo recente contra a milionária família Sackler e os efeitos do OxyContin (um opiáceo altamente viciante), pela redução de danos e pelo acesso a tratamentos médicos, pela liberdade.

Que sorte temos em sermos contemporâneos de Nan Goldin. Que sorte a dos que puderem ver, esta semana, os seus slideshows. Que bom que haja quem amplie, pelo seu olhar, o nosso – e nos dê a ver a impetuosidade da vida, dos amores, dos vícios, dos sofrimentos.

Artigo publicado em expresso.pt a 30 de novembro de 2022

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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