Aulas de Cidadania: A ignorância é força

porRita Gorgulho

23 de outubro 2024 - 12:18
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Montenegro e Ventura, ao reverem o programa de Cidadania e Desenvolvimento, não querem libertar os jovens de nada — querem, antes, confiná-los à ignorância e prepará-los para um futuro em que questionar o poder é um ato subversivo.

Vivem-se tempos estranhos. Subitamente, vemo-nos numa realidade distópica, em que a mentira se torna realidade, à semelhança de um romance orwelliano. Por mais fact checks que se façam, por mais dados científicos que o neguem, a voz de quem grita mais alto acaba nas páginas da frente dos jornais, repetindo a mentira como se fosse real. Inventam-se termos para ridicularizar quem apela ao bom senso, e confundem-se direitos humanos com posições políticas.

O que nos parecia uma (ir)realidade de campanhas realizadas em países como o Brasil, através de Bolsonaro — com as suas famosas teorias de que vacinas transformariam pessoas em jacarés ou de que os incêndios na Amazónia foram provocados por ONGs ambientais — e nos EUA, com Trump — que alimentou teorias da conspiração como a fraude eleitoral nas eleições de 2020 e nas atuais e a absurda crença no QAnon —, torna-se também a nossa realidade. Agora, pela mão de André Ventura, que não hesita em espalhar falsidades sobre minorias, como a ideia de que está a haver uma substituição da população, e a desinformação descarada sobre imigração e criminalidade. E, pasme-se, até Montenegro parece não querer ficar para trás nesta corrida enlouquecida contra o bom senso.

A última vítima desta demanda é a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Esse "instrumento do mal", essa "devassa" das famílias em que nós, professores que a lecionamos, somos obrigados a abordar temas “ideológicos” como igualdade, respeito, direitos humanos e — horror dos horrores! — trabalho e empreendedorismo. Aliás, é esse o tema que estou a abordar com a minha turma do 12.º ano. O terror de explicar o que é um contrato de trabalho, a diferença entre um verdadeiro e um falso recibo verde, os direitos e deveres laborais, para que servem os nossos impostos, como preencher um IRS, o impacto da globalização no mundo do trabalho e, até, a segurança e saúde no local de trabalho.

A verdade é que, no fundo, não se trata de uma luta contra "ideologias" ou "amarras", mas de uma luta pelo controlo do pensamento. Quando ensinar respeito, direitos humanos e conhecimento prático sobre o mundo laboral é visto como uma ameaça, é porque os que criticam sabem que uma população informada é o maior obstáculo às suas ambições autoritárias. Montenegro e Ventura, ao reverem o programa de Cidadania e Desenvolvimento, não querem libertar os jovens de nada — querem, antes, confiná-los à ignorância e prepará-los para um futuro em que questionar o poder é um ato subversivo. Como dizia Orwell: “A ignorância é força.” E eles sabem-no bem.

Rita Gorgulho
Sobre o/a autor(a)

Rita Gorgulho

Designer e professora
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