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A arena das contradições

Touradas são violentas e uma experiência feroz para quem a elas assiste, particularmente para crianças e jovens, que quando expostas àquilo que é uma verdadeira antítese da relação ideal com animais e natureza, sofrem um impacto emocional negativo.

Evolução é o conceito chave. Vamos também assumir que, além de um conceito e até de um facto, é também um objetivo, individual e coletivo, que pressupõe transformação para melhor.

Vamos ainda fazer um exercício de análise, que nem é necessário que seja particularmente profundo, e olhar a história e as memórias: como se comportam as tradições? São artefactos indestrutíveis e imovíveis da nossa vida e de sempre ou, pelo contrário, são mutáveis, aparecem, desaparecem, transformam-se, adaptam-se, adequam-se?

A resposta certa é a segunda.

Pelo disposto, pois porque continua a ser a tradição argumento para a tortura e violação completa de direitos animais através dos (ditos) espetáculos tauromáquicos?

Os espetáculos tauromáquicos, as touradas, as grandes corridas, as garraidas, e outras coisas que tais, são eventos nos quais touros são torturados por seres humanos, por vezes montados a cavalo, por vezes com recurso a objetos cortantes e perfurantes, entre outras variações. Tudo isto se justifica como sendo tradição e entretenimento.

Sabemos hoje que os animais são seres sencientes, ou seja, que são capazes de experienciar sentimentos e emoções de forma consciente; ou seja, que sentem dor e sofrimento. Mas mais do que sabermos, esta verdade é reconhecida na nossa legislação. É também evidente que grande parte da população rejeita este tipo de espetáculos, havendo, a nível global, cada vez menos aficionados da tauromaquia.

Ainda assim, Portugal continua a ser um dos poucos países onde estes eventos são permitidos e, mais ainda, onde a sua continuidade é garantida através de financiamento e apoios públicos, diretos e indiretos. O Governo português consegue até falhar no mais óbvio, até naquilo que já anunciou como aprovado, veja-se o exemplo seguinte.

Touradas são violentas e uma experiência feroz para quem a elas assiste, particularmente para crianças e jovens, que quando expostas àquilo que é uma verdadeira antítese da relação ideal com animais e natureza, sofrem um impacto emocional negativo. Mas as touradas continuam a ser acessíveis a crianças a partir dos 12 anos.

O Governo até anunciou em outubro de 2021 que tinha aprovado um decreto-lei para que o limite mínimo de idade passasse a ser de 16 anos. Porém, à data em que estamos, constata-se que o documento não foi publicado no Diário da República.

É este o cenário da arena das contradições, onde até o diploma que legisla a Proteção dos Animais (Lei n.º 92/95 de 12 de Setembro) começa por dizer que “são proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistentes em, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal”, para quase de seguida salvaguardar que “é lícita a realização de touradas”.

Pois viva! Viva a irracionalidade do único ser que se diz racional! Viva o espetáculo e a tradição! Só o touro é que não viva nem vive, e se vive que se dane a dignidade, que se dane o bem-estar animal, que se dane a evolução.

Sobre o/a autor(a)

Ativista na Plataforma Já Marchavas, pertence à equipa editorial do Interior do Avesso. Membro da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, da comissão distrital e da concelhia de Viseu. Licenciada em Antropologia.
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