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Aprendemos?

Tudo o que aprendemos com a crise anterior tem agora que ser firmemente trazido para o modo como vamos responder a esta crise.

Confiramos aos passatempos de verão com que a silly season nos entreteve o estatuto que é o deles (puro entretenimento estival), mantenhamos toda a vigilância sobre o avanço das estratégias de normalização da abjeção política e social e foquemo-nos no desafio central destes dias: que respostas vão ser dadas ao país que mergulha numa crise social imensa sem sair da crise sanitária que sabemos que se arrastará? Que estratégias vamos adotar para preservar o emprego, o salário, a pensão, o Serviço Nacional de Saúde, a escola para todos? O que temos que fazer e o que não devemos fazer?

Num tempo curto, esta é, para a grande maioria, a segunda crise grave que se atravessa nas suas vidas. Essa tragédia vem em nosso auxílio. Porque tudo o que aprendemos com a crise anterior tem agora que ser firmemente trazido para o modo como vamos responder àquelas perguntas essenciais e a esta crise. O que aprendemos então com as políticas da troika e com as alternativas que lhes contrapusemos a partir de 2015? Aprendemos que a contração do salário e da pensão contrai a economia e gera desemprego e emprego precário. Aprendemos que é em tempos de crise que o estímulo ao salário e à pensão se revela essencial para manter a economia a carburar. Aprendemos que a diminuição dos direitos não é uma fatalidade, mas sim uma estratégia animada pelos de cima contra os de baixo e que a cada passo de diminuição, sempre prometido como o último, se segue outro, e outro e mais outro, sempre no mesmo sentido. Aprendemos que o desinvestimento nos serviços públicos (o hospital, a escola, o tribunal) tira aos de baixo rendimento e vida e nos torna mais desiguais e deslaçados como sociedade.

Aprendemos tudo isto? Tenho dúvidas. Porque, no arranque para as escolhas que vamos ter que fazer e de que o próximo orçamento será uma primeira mostra, está a voltar em força o discurso de que a compressão dos salários (a começar pelo salário mínimo) é uma inevitabilidade. Está a voltar em força o discurso miserabilista de que exigir que se cumpra o investimento estratégico no SNS que ficou inscrito no orçamento para 2020 é um delírio. Os mesmos de sempre preparam-se para chamar de volta a austeridade chamando-lhe outra coisa qualquer. Chamando-lhe, por exemplo, “prova de responsabilidade”, que é uma coisa que fica sempre bem e dá ares de seriedade e de “sentido de Estado”.

Cumprir o orçamento de 2020 antes de avançar para o de 2021, isso sim é um sinal de seriedade. E uma prova de que não desaprendemos tudo o que conseguimos fazer contra os profetas da crise como política. Chamo a isso sentido de Estado.


Artigo publicado no diário As Beiras, 29 de agosto de 2020.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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