Vivemos tempos em que a mentira, gritada e repetida com convicção, parece ganhar estatuto de verdade. Uma das falácias mais recorrentes, e das mais fáceis de propagar, é a ideia de que os imigrantes que vivem em Portugal recebem apoios generosos, entre 800 a 900 euros mensais, enquanto os portugueses “não têm direito a nada”. Esta narrativa, amplamente partilhada por figuras e simpatizantes da extrema-direita, não só é falsa, como profundamente injusta para com todos os que vivem, trabalham e contribuem para o nosso país, independentemente da sua origem.
O acesso ao rendimento social de inserção, abono de família, apoio ao arrendamento, complemento solidário para idosos ou abono por incapacidade (e respetivo nível percentual) depende de critérios objetivos e específicos de carência económica - e não da nacionalidade. É crucial sublinhar que qualquer cidadão estrangeiro que pretenda aceder a estes apoios tem de residir legalmente em Portugal, cumprir os prazos mínimos de residência exigidos por lei e comprovar estar em situação de vulnerabilidade, tal como qualquer cidadão português. Não existe qualquer subsídio automático de 800 ou 900 euros para estrangeiros, como sugerem fotografias manipuladas e publicações sensacionalistas nas redes sociais.
E depois há outro mito que insiste em circular: o de que os imigrantes são um peso para o Estado. Mais uma vez, os números desmentem categoricamente essa ideia. Em 2023, os imigrantes contribuíram com mais de 2,6 mil milhões de euros para a Segurança Social e receberam pouco mais de 480 milhões em prestações. Em 2024, contribuíram com mais de 3,6 mil milhões, tendo recebido 687 milhões. O saldo líquido ultrapassou os 2,9 mil milhões de euros. Ou seja: não só não pesam no sistema, como são uma das suas traves-mestras. Ajudam a pagar pensões, a sustentar serviços, a fazer o país funcionar.
Apesar disso, continuam a ser apontados como responsáveis por problemas estruturais que não causaram. São vítimas da ignorância e da má-fé de quem prefere repetir chavões em vez de consultar dados. Opiniões feitas e conversas de café não são factos. Há número reais que o comprovam. Basta procurar que não no Facebook ou no TikTok. A informação credível não se encontra nas redes sociais, mas em fontes de informação oficiais.
Importa também desmontar a ideia de que os imigrantes “vêm sugar o sistema”. A esmagadora maioria trabalha, desconta, paga impostos e contribui para a Segurança Social — muitas vezes em setores que os portugueses rejeitam. Então porquê tanta facilidade em colar-lhes a imagem de privilegiados ou oportunistas?
A resposta é simples: porque é mais fácil encontrar um bode expiatório do que questionar os verdadeiros responsáveis pela desigualdade. Enquanto os pobres se digladiam em discussões sobre “os outros pobres”, os ricos continuam intocáveis, a comer caviar e a rir-se das figuras que fazemos. A narrativa do “imigrante culpado” é, na verdade, um desvio de atenção que protege quem mais tem. Serve para dividir os de baixo e poupar os de cima.
A narrativa do “imigrante culpado” é, na verdade, um desvio de atenção que protege quem mais tem. Serve para dividir os de baixo e poupar os de cima
Não falamos aqui de pessoas com rendimentos estáveis, consideradas ricas que pagam os seus impostos. Falamos dos obscenamente ricos. Dos donos de grandes corporações. Dos que acumulam fortunas absurdas à custa do trabalho de milhões e que, com a ajuda de esquemas legais e paraísos fiscais, fogem sistematicamente às suas obrigações para com o Estado.
Vamos a dados. Os relatórios internacionais são claros: se os bilionários fossem justamente taxados, a realidade económica dos países mudaria radicalmente. Veja-se o exemplo da Finlândia, um dos países com menor desigualdade na OCDE. Lá, combate-se a pobreza com impostos progressivos, redistribuição real e um Estado Social que trata a dignidade como um direito, não como um prémio. Ali, não se ataca o imigrante, combate-se a desigualdade, venha ela de onde vier.
Enquanto os pobres discutem quem é mais pobre ou mais merecedor de ajuda, os super-ricos seguem intocáveis. E isto não é coincidência. Basta olhar para o circo político dos EUA, onde bilionários governam como se o país fosse uma empresa privada, escapando a impostos, a responsabilidades e à própria lei, enquanto promovem o ódio contra os mais frágeis com recurso À força e à violência.
Camaradas, leitores e amigos: o discurso de ataque às minorias tem sido, desde sempre, uma ferramenta de manipulação política. Divide-nos. Enfraquece-nos. Impede-nos de ver o inimigo real.
Acreditem, o problema de Portugal não são os imigrantes. O problema reside na desigualdade. O problema é a fuga ao fisco dos bilionários. O problema são os salários de miséria, os preços absurdos da habitação, a degradação dos serviços públicos. Enquanto não apontarmos o dedo na direção certa, continuaremos a combater fantasmas - e o verdadeiro monstro continuará a devorar-nos em silêncio, rindo-se de boca - e bolsos -cheios.
Este artigo foi escrito com base em dados públicos, estatísticas verificáveis e fontes oficiais. Contra a mentira, a evidência. Contra o preconceito, a verdade.