Apenas pode sentar se pagar

porBeatriz Realinho

21 de setembro 2023 - 15:17
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Damos o espaço público como garantido, e, por isso, não o reivindicamos, até nos darmos conta que este começa a desaparecer enquanto espaço de mobilidade e partilha entre os corpos que nele habitam (ou querem habitar).

As cidades têm sido cada vez mais ocupadas pelo privado, todos os dias, sob a forma de esplanadas de restaurantes e cafés, anúncios publicitários, que fazem uma ode ao consumo, deixando o espaço público de ser um local de convívio, de brincadeira, de lazer, de estar. Damos o espaço público como garantido, e, por isso, não o reivindicamos, até nos darmos conta que este começa a desaparecer enquanto espaço de mobilidade e partilha entre os corpos que nele habitam (ou querem habitar).

A cidade é vista como o espaço onde os corpos se movem em função da produção e do trabalho, deixando de fora da rotina e azafama dos dias o lazer e o descanso. Estes que não tem que ser apenas no conforto dos nossos lares – também mais escassos devido à crise da habitação sentida por tantas de nós – mas que podem existir enquanto estamos sentadas num banco de jardim a ler um livro, por exemplo. Os bancos em praças, jardins, parques mantêm o espírito de comunidade e de convívio em coletivo. O que temos visto a acontecer é o retirar destes bancos, ou então a sua substituição por outros que nada contribuem para o bem-estar de quem deles quer usufruir. Na sua maioria são desconfortáveis, sem encostos, individuais e espaçados, ou quando são maiores têm apoios de braços, o que impede quem neles se quer deitar. Assim sendo, deixam de servir a população, principalmente aquela que mais deles precisa: pessoas idosas, pessoas grávidas, famílias com crianças, não esquecendo as pessoas em situação de sem abrigo.

Humanizar de novo as cidades em que estudamos e trabalhamos é o que pretendemos. Tal torna-se uma urgência quando assistimos aos problemas habitacionais e urbanísticos que nelas encontramos. Viver as cidades na sua totalidade através de habitação e espaço público com um verdadeiro interesse social, que seja coeso, onde encontramos redes de vizinhança que cuidam em comunidade umas das outras. Ao não banalizarmos o espaço público estamos a cuidar e a zelar por uma vida citadina vivida e animada, onde gerações se cruzam, onde há espaço para ambientes socioculturais existirem. Servindo este espaço para trazer alegria à vida privada por vezes tão solitária. Pelo direito de jogar à sueca na praceta, pelo direito a brincar no parque, pelo direito a usufruir do espaço público sem ter que se pagar para tal. Pelo direito a uma casa para morar e uma cidade para viver.

Beatriz Realinho
Sobre o/a autor(a)

Beatriz Realinho

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais. Ativista política e das causas LGBTQIAP+, ambientais e feministas. Autora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”
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