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Andar na linha

O Estado chinês está a testar um sistema de crédito social, ao abrigo do qual os cidadãos serão classificados consoante o seu comportamento nas várias facetas da sua vida quotidiana.

A notícia passou quase despercebida aos meios de comunicação social cá do burgo: o Estado chinês está a testar um sistema de crédito social, ao abrigo do qual os cidadãos serão classificados consoante o seu comportamento nas várias facetas da sua vida quotidiana. O objetivo é criar um “ranking de confiança”, que vai servir, entre outros, para saber se aquela pessoa é elegível para contrair um crédito, fazer um seguro de saúde, participar num processo de recrutamento ou até para comprar casa e por os filhos em determinada escola.

Para este intrépido ranking contam comportamentos que vão da informação fiscal ao tempo que cada um passa a jogar videojogos ou a correr no parque. Tudo passa a ser avaliado: multas de trânsito, títulos académicos, dívidas fiscais ou à banca, problemas de saúde, e por aí fora. Para já, o programa está em fase piloto, na qual participam oito das maiores empresas da China, que estão a atribuir pontos de crédito social aos voluntários que aceitaram fazer parte da experiência. Tudo, com o aval do Estado chinês. O objetivo é que, até 2020, todos os 1,3 mil milhões de chineses estejam incluídos nesta gigantesca base de dados social e classificados de acordo com os pontos atribuídos pelas várias entidades com que interagem ao longo da vida. A ideia, segundo o Governo de Xi Jinping, é criar um ambiente “em que a confiança será valorizada”, sendo atribuídas recompensas a quem reportar “atos de abuso de confiança”.

Convenientemente, alguns grupos de pessoas – professores, jornalistas, médicos e guias turísticos – serão objeto de um escrutínio ainda mais exigente. Curiosamente, os políticos estão fora desta esfera. Uma das empresas participantes no teste piloto é o braço financeiro do “gigante” Alibaba, propriedade de Jack Ma, o homem mais rico da China. A empresa cria a sua escala de crédito social a partir do tipo de produtos que os clientes compram via Internet. Isto implica, por exemplo, que quem jogue consolas de jogos muitas horas por dia seja considerado ocioso. Ou que quem compre fraldas com frequência seja classificado como responsável. Segundo a BBC Brasil, o sistema do Governo não será exatamente igual, mas terá em conta a experiência destas empresas. Ou seja, será bastante similar!

Um ranking de estratificação social

Esta inovadora e orwelliana escala de classificação social permite estratificar cada cidadão de forma individual. Quem tiver uma boa pontuação terá descontos em hotéis ou rent-a-car, podendo ter acesso a apólices de seguro ou a vistos de residência, entre outros.

Em sentido contrário, aos do fundo da escala estarão reservados os empregos mais mal pagos, os empréstimos mais onerosos e os hospitais com piores condições. Até as escolas que os filhos poderão frequentar terão como base esta bizarra pontuação, que pode influenciar, desde o berço, o percurso de vida de várias gerações.

Europa pelo mesmo caminho?

Para já, esta situação é impensável na Europa, no entanto, análises recentes levadas a cabo no “velho continente” sugerem que a tendência pode bem extravasar as fronteiras do gigante chinês. Uma decisão recente do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, divulgada pela revista digital www.delas.pt, legitimou o acesso a mensagens privadas de um trabalhador, enviadas durante o horário de expediente, por parte do empregador. Esta decisão é alargada a todas as mensagens, incluindo as da caixa de correio eletrónico.

Por outro lado, um estudo realizado pela Universidade de Gent, na Bélgica, revelou que os candidatos ao mesmo emprego, com as mesmas qualificações, tinham 40 % mais de hipóteses de serem contratados se estivessem totalmente vestidos na foto de perfil do Facebook. Além disso, aqueles que não estavam a sorrir, tinham menos hipóteses de serem chamados para uma primeira entrevista. O estudo conclui assim que é cada vez maior a tendência de os patrões usarem as redes sociais para avaliarem candidatos a vagas nas suas empresas.

De 1984 ao culto sagrado do mérito

Estas mudanças não acontecem por acaso. São consequência da evolução de uma linha de pensamento neoliberal, que defende a diferenciação por méritos ou comportamentos, normalmente dentro do establishment pré-definido por quem impõe as regras. Uma forma de premiar quem se insere dentro dos parâmetros definidos como aceitáveis em detrimento de quem não cabe em tais standards, também conhecido no ecossistema neoliberal como meritocracia.

Desengane-se quem pensa que esta linha de pensamento não é global e não faz parte de uma agenda à escala mundial. Ela está aí, estende-se da América de Trump à China de Jinping, à Alemanha de Merkel ou à França de Macron. O próprio Centeno o deixou bem claro há alguns dias na Assembleia da República, como a já tristemente célebre expressão “temos todos de saber merecer”.

Imagine-se um mundo onde os empregados são contratados em função das fotografias que colocam no Instagram, dos livros que compram na Amazon ou da natureza política dos tweets que escrevem. Um mundo onde a sorte dos filhos é determinada pelo ranking dos pais e avós, por sua vez, condicionada pelo partido que apoiam, pela religião que professam ou pelo clube de futebol do qual são adeptos. Ou pelos problemas de saúde. Ou pelo número de ações de voluntariado que decidem ou não praticar. É mesmo por aqui que queremos ir?

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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