Anadia: o caricato caso dos estudantes demasiado deslocados

porLuís Monteiro

14 de setembro 2023 - 0:02
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No concelho da Anadia, está em execução a reabilitação de um imóvel público para uma futura residência de estudantes. As duas universidades mais próximas (Aveiro e Coimbra) ficam a cerca de 30 Km. Não existe política de mobilidade que forneça transportes para deslocações diárias para as cidades.

Em Portugal, 3,6% dos estudantes do ensino superior têm acesso a alojamento em residências públicas. Do universo de todos os estudantes deslocados das suas cidades de origem, apenas 8,6% acaba por receber uma resposta positiva ao seu pedido de quarto. A par disso, os valores no mercado de arrendamento disparam todos os anos. Nas maiores cidades do país, onde também se concentra o maior número de estudantes, só este ano a média do valor de arrendamento de um quarto aumentou perto de 20% relativamente ao ano passado. Em Lisboa, Porto ou Coimbra, conseguir um quarto pode significar sacrificar uma despesa perto dos 500€ mensais para conseguir estudar.

A especulação imobiliária e a aposta na monocultura económica do turismo fez disparar os preços da habitação, realidade à qual os estudantes deslocados do Ensino Superior não são imunes. Um pouco por todo o país, o acesso a um curso superior não é acompanhado do direito ao respetivo alojamento. Mas como a exceção confirma a regra, o Governo tratou de garantir uma residência de estudantes onde não há oferta de Ensino Superior.

No concelho da Anadia, está em execução a reabilitação de um imóvel público para uma futura residência de estudantes. As duas universidades mais próximas (Aveiro e Coimbra) ficam a cerca de trinta quilómetros de distância. Não existe qualquer política de mobilidade que forneça um serviço de transportes cabal para deslocações diárias para cada uma destas cidades. Se a ideia é convidar os estudantes a não participar nas aulas, o projeto é um sucesso.

Que caminhos tomados levaram a tamanho absurdo?

Que caminhos tomados levaram a tamanho absurdo? O Plano Nacional de Alojamento Estudantil prevê que todas as autarquias e outras entidades públicas e/ou privadas possam referenciar imóveis devolutos e fora de utilização para intervenções com o objetivo de os transformar em residências. Seria expectável que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior fizesse duas coisas em simultâneo. Num primeiro momento, ter a capacidade de filtrar todas essas candidaturas e, de seguida, priorizar os investimentos. Sobre este último ponto e a título de retrato, relembro que há anos que os estudantes da cidade de Lisboa esperam que Governo e Câmara Municipal se entendam e avancem de uma vez por todas com a transformação do antigo edifício do Ministério da Educação em residência para estudantes.

A verdade é que aconteceu justamente o oposto. O caso da Anadia foi tornado público, com o Governo e o Executivo Camarário a comemorar o brilhantismo da ideia. Rapidamente, os responsáveis políticos da autarquia explicaram que talvez este seja o primeiro passo para a Anadia poder ter, um dia, um pólo de Ensino Superior. Ao mesmo tempo, nas cidades onde a pressão dos custos da habitação mais asfixia os estudantes deslocados, o Governo prefere empurrá-los para a selva do mercado - visão não muito distinta da partilhada pelas direitas sobre os milagres do mercado que tudo resolve.

O episódio da Anadia é, acima de tudo, uma mensagem: mais cedo do que tarde, vamos ser todos estudantes demasiado deslocados das cidades que escolhemos para estudar, trabalhar e viver.

Luís Monteiro
Sobre o/a autor(a)

Luís Monteiro

Museólogo. Investigador no Centro de Estudos Transdisciplinares “Cultura, Espaço e Memória”, Universidade do Porto
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