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A ameaça espectral do fascismo paira novamente

Circunstâncias historicamente idênticas podem dar lugar a fenómenos da mesma natureza, ainda que distintos na sua concretização.

A nossa Convenção está colocada perante um desafio talvez ímpar na história do Bloco de Esquerda: o da emergência rompante na Europa, nos EUA, na América Latina, do populismo de extrema-direita no quadro da ofensiva neoliberal do capitalismo. A eleição do fascista Bolsonaro no Brasil aí está a soar como uma sirene de alarme à escala internacional. Como se a história se repetisse, a ameaça espectral do fascismo, sob novas ou velhas formas de autoritarismo antidemocrático, paira novamente sobre o presente e o futuro.

Sendo certo que a história na sua positividade não se repete, é no entanto verdade que circunstâncias historicamente idênticas possam dar lugar a fenómenos da mesma natureza, ainda que distintos na sua concretização. O paralelismo com a “época dos fascismos” nos anos 20/30 do século passado sem dúvida que nos ajuda a compreender os perigos e desafios dos dias de hoje.

– Tal como o fascismo no passado, a emergência da extrema-direita nos nossos dias é fruto de uma crise geral do capitalismo, da sua degenerescência especulativa e financeira, do seu efeito sobre as taxas de acumulação e de lucro. E da pressão que isso coloca sobre o capital financeiro a nível nacional e internacional para a adoção de políticas radicalmente subversivas das conquistas democráticas e sociais alcançadas pelos povos após a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. E é isso que é a ofensiva neoliberal desencadeada nos anos 80/90 do século XX.

– Tal como nos anos 30 do século passado, a nova ofensiva do capital tem objetivos precisos: subverter a relação de forças entre o capital e o trabalho contra tudo o que o mundo assalariado conquistou nos planos político, social e cultural. É de uma contrarrevolução de que novamente se trata, ainda que ela surja mansa e formalmente respeitadora das formas democráticas, onde sabe poder operar sem grandes resistências sociais e até com a colaboração de quem está no poder; mas não hesita em radicalizar o discurso e a ação quando a resistência é forte e determinada: e aí temos Bolsonaro a prometer a cadeia ou o exílio para os “vermelhos”, ou Trump a ameaçar abertamente com a subversão das práticas constitucionais dos EUA, ou mesmo Macron a transformar as leis de exceção antiterroristas em normas ordinárias de atuação da polícia e do Estado em França agora como medida contra a resistência popular às políticas neoliberais.

– Tal como na época dos fascismos, a direita tradicional e o centrão tradicionalmente monopolizador da vida política renderam-se primeiro ao neoliberalismo como estratégia do capital e aliam-se agora à extrema-direita e ao populismo xenófobo e racista para cavalgar o descontentamento difuso e antissistémico da população e agarrar-se ao poder como gestores da contrarrevolução neoliberal. A nova postura de complacência e de normalização da extrema-direita e do apoio, envergonhado ou não, ao fascista Bolsonaro assumidos no nosso país por Paulo Portas, Assunção Cristas, pelo grupo do Observador e pelo lixo reacionário das redes sociais evidencia que há uma nova atitude da direita portuguesa para além da adesão à estratégia predadora do neoliberalismo: a da aliança potencial com o populismo da extrema-direita.

– Tal como no passado recente, a extrema-direita populista cavalga demagogicamente o descontentamento daqueles setores da sociedade mais atingidos pelas políticas predadoras do capitalismo neoliberal: os jovens qualificados sem trabalho, os milhões de desempregados das empresas falidas em massa, os trabalhadores do setor terciário, devastado pelos encerramentos e pela concentração oligopólica, as mulheres da discriminação agravada… E isso acontece precisamente naqueles países onde a rendição ou o colapso das esquerdas deixou esses setores sem voz, desarmados e à mercê da demagogia torpe, transclassista e ultranacionalista de uma extrema-direita que manipula essa revolta somente para manter e agravar a ordem das coisas que os levou à situação dramática em que se encontram. A experiência demonstra que onde existe a nível nacional uma esquerda que não se rende e que assume e protagoniza sem hesitações a luta de todos os que são vítimas da exploração e da discriminação de classe, de género ou de etnia, a extrema-direita enfrenta uma barreira de aço à sua progressão.

– Tal como na época dos fascismos, a direita portuguesa desenterrou dos seus próprios escombros arqueológicos uma velha teoria mistificadora: a de que a responsabilidade da emergência da extrema-direita é da esquerda que se recusa a aceitar as reformas modernizantes do neoliberalismo como decorrentes da realidade inelutável da vida. Ora é precisamente o contrário, a brutal regressão civilizacional que o neoliberalismo representa não é a realidade inelutável a que estejamos condenados a rendermo-nos. E só recusando-a e combatendo-a poderemos derrotar as ameaças da extrema-direita. A extrema-direita alimenta-se dos destroços sociais do processo de acumulação do capitalismo parasitário, especulativo e financiarizado, isto é, do neoliberalismo e da sua política de destruição económica e social. A modernidade emancipatória não só não está nisso como está contra isso. Lutar contra a extrema-direita passa, por isso e em primeira linha, pelo combate à ordem corrupta, especulativa e predadora do capitalismo da época atual: o neoliberalismo.

– Finalmente, e ao contrário dos anos 30, às esquerdas socialistas compete não repetir os erros de capitulação ou de sectarismo que tragicamente as dividiram no passado, abrindo o caminho ao nazi-fascismo. Creio que hoje elas são colocadas nos movimentos sociais, na luta sindical, na luta dos moradores, nos movimentos feministas, na luta estudantil, no combate antirracista, em todas as frentes sociais e políticas onde se resista e combata pelo futuro, perante o emergente dever de lutar pela unidade na diversidade, de se respeitar e entender mutuamente no combate emancipatório e democrático que a todos concita.

Se assim for, saberemos assumir o compromisso que os socialistas britânicos do século passado transformaram em livro: “we will keep the red flag flying here” – manteremos a bandeira vermelha a drapejar ao vento.

Intervenção na sessão internacionalista que abriu a XI Convenção do Bloco de Esquerda, a 9 de novembro de 2018.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, historiador, professor universitário.
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