Não conseguiria resumir-lhe a vida que desafiou tantas vezes na luta pelos camponeses e pelos trabalhadores pobres do Brasil e de Portugal. Enfrentou a violenta ditadura brasileira, foi preso e torturado, fundou as Ligas Camponesas, organizou ocupações. Nasceu em Trás-os-Montes mas lutou em todo o lado e resistiu, sempre.
No final do ano passado, a companheira do Alípio pediu-me que escrevesse um texto para uma coletânea de “Palavras de Amigos”, com contributos de amigos e companheiros, que seria editada em fevereiro como uma das surpresas na festa do seu 88º aniversário.
Poucos meses depois, o Alípio morreu, e eu não tenho como fugir a essas palavras que escrevi para o comemorar em vida.
Que nunca digam que desapareceu. Porque o seu nome há de continuar a ecoar, do Sertão a Trás-os-Montes, indomável, como o homem: Alípio de Freitas.
Palavras de Amigos
“Para falar do Alípio tenho de inverter o que será o sentido histórico mais comum da coisa. Para muitos, o Alípio cresceu em mito antes que a proximidade lhe certificasse a humanidade. Para mim foi ao contrário, primeiro nasceu o homem. Na memória da minha vida de gaiata o Alípio confunde-se no dia a dia de uma família alargada que, sabe-se lá porquê, escolheu Alvito como refúgio dos revolucionários.
Hoje talvez consiga perceber melhor por que razão um transmontano brasileiro se resolve alentejano mas, naquela altura, os meus interesses centravam-se na animação da rua de Beja em dia de feijoada, onde aprendi a gostar de farofa e a interessar-me pelo rodopio das conversas dos adultos. À medida que fui crescendo e o Alípio mudou de casa (mas não de rua), também as conversas de adultos se foram tornando mais nossas, por direito próprio.
O mito só nasceu mais tarde, a propósito de uma canção de Zeca, a primeira que aprendi de cor enquanto contestava a humanidade de quem não se deixa domar pela tortura em cinco masmorras. Ao longo destes anos muitas outras histórias sobre a resistência e a coragem do Alípio vieram instigar-me a dúvida da juventude, mas nenhuma me marcou como a que começa na Baía de Guanabara.
As histórias nunca cessaram. Mas a verdade é que, por mais extraordinárias que sejam, nunca conseguirei desligar o seu protagonista, Alípio-mito, Alípio-herói, do homem que fazia feijoadas na rua de Beja e que contribuiu, tão silenciosamente como só a presença constante pode ser, para a construção da minha consciência.
Não posso falar de um passado que não vivi. Deixo isso para quem com ele partilhou a ação. Eu bebi-lhe da convicção, e essa, tal como o Alípio, não só não envelhece como será sempre a marca quem assalta os céus à procura do futuro.”
Artigo publicado no jornal “I”, em 14 de junho de 2017