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Alimentar o monstro

Numa altura em que nos transformámos todos/as em vítimas do monstro da especulação, há ainda quem ache que se deve substituir a alimentação compulsiva do monstro por uma dieta saudável que ele seria simpático em aceitar.

A monstrologia política nacional é uma história liberal. Tempos houve em que se discutia tão apaixonadamente a paternidade do monstro quanto se queria fazer tomar por evidente o seu carácter assustador. Na linguagem dos liberalismos de então, o monstro era um défice parasitário alimentado à custa dos impostos, uma clara arma de arremesso contra a Segurança Social, o Sistema Nacional de Saúde, a Escola Pública e os salários da função pública, resumidos no populista e monstruoso nome de “Estado”. Só que, em tempos de subsídios europeus e de créditos ao consumo, apesar da demagogia anti-Estado e impostos conseguir ter efeitos reais que pesavam aos/às trabalhadores/as, o defice surgia à maior parte como um longínquo argumento técnico e de autoridade que era sentido como um monstro, apesar de tudo, sereno.

A actual monstrologia política é bem mais assustadora porque as suas consequências poderão ser devastadoras. O discurso mediático desta campanha refaz o discurso da paternidade do monstro do deficit com Passos Coelho a insistir no despesismo socialista e Sócrates na paternidade por contágio externo, fazendo a rábula do herói que teria conseguido resistir com uma austeridadezinha menor mas que foi tramado pela politiquice alheia. É um debate que oculta o acordo na receita FMI feita de cortes de direitos, de salários directos e indirectos: ambos se propõem matar o monstro do défice fazendo dos/as trabalhadores, desempregados/as e pensionistas danos colaterais.

E este debate oculta também o fundamental, que há outro monstro na história, o da especulação. É senso comum que alimentar o monstro só o torna mais forte mas desde que a crise começou que os teóricos do Estado-monstro nos tentam convencer que a única solução é alimentar a especulação. Primeiro, quando rebentou a bolha especulativa imobiliária, disseram-nos que tinha de ser o investimento público a salvar bancos e outros aventureiros financeiros ou então perder-se-iam todas as poupanças. Depois, quando rebentaram as crises da dívida soberana, disseram-nos que tínhamos de pagar juros usurários aos mesmos ou então era o país por inteiro que caía. E lá foi o dinheiro público pagando primeiro prejuízos depois juros à custa da austeridade para os/as mais fracos/as. Os especuladores, que rapidamente morderam a mão visível que os alimentou, acabaram por fazer da crise um bom negócio. E afinal a história da crise pode ser contada como se fosse a história da cadeia alimentar em que o trabalho alimenta o monstro insaciável do capital especulativo cada vez mais intensamente.

Para além do mais, não contente com esta transferência de rendimentos que impôs a seu benefício, o monstro especulativo virou ainda os olhos para os mercados de futuros e de commodities decidindo alimentar-se agora da fome. A crise alimentar alimentada pela especulação nos preços e potenciada pelo desvio da produção agrícola para a produção de biocombustíveis é o mercado grotesco da fome que aumenta uma já escandalosa distribuição desigual dos bens alimentares tornando-se uma verdadeira história de terror para mais 75 milhões de pessoas. No mundo parvo em que vivemos, morrem milhares de pessoas de fome por dia quando existe comida suficiente para alimentar todos/as. No mundo parvo em que vivemos menos de 1% diz a ONU dos fundos económicos que os governos utilizaram para salvar os bancos que criaram a crise poderiam acabar com essa fome. E é isso que é verdadeiramente monstruoso.

Numa altura em que nos transformámos todos/as em vítimas do monstro da especulação, há ainda quem ache que se deve substituir a alimentação compulsiva do monstro por uma dieta saudável que ele seria simpático em aceitar. Contudo, os monstros insaciáveis mas simpáticos parecem existir só na ficção. E mesmo aí se perdem tudo quando deixam a sua natureza. Veja-se o simpático monstro das bolachas símbolo do desejo que não adia a gratificação e do consumismo que, convertido ao politicamente correcto do capitalismo saudável, se viu obrigado a reconhecer publicamente que as bolachas não eram uma alimentação correcta e deixou de ser o que era. Não é crível que o monstro da especulação, a alma deste capitalismo, alguma vez venha a ser assim tão mole. Por isso, as retóricas mínimas da regulação soam a pouco e as suas práticas acabarão fintadas pelos interesses dos especuladores. E para combater o horror económico é urgente bem mais do que uma política monstro das bolachas.

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Professor.
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