A situação da pseudoinformação em que vivemos, a chamada pós-verdade, veiculada pela extrema-direita, mas nem sempre recusada firmemente pela chamada direita tradicional, permite criar narrativas que alteram factos e mascaram a história em benefício dos que exercem o poder.
A desfaçatez de certos historiadores vai ao ponto de tentarem na sua leitura alternativa dos acontecimentos omitir factos, comparar a fiabilidade das fontes, acabando num enviesamento de discurso.
Têm surgido narrativas de sectores conservadores em torno do fascismo português e das suas ligações com os regimes fascistas de Espanha, da Itália e da Alemanha, inverdades e falsificações que me parecem não terem merecido uma crítica suficientemente apurada dos investigadores da contemporaneidade.
Durante o período da Primeira Republica, por uma direita ultramontana e reaccionária foram cometidas atrocidades incríveis o que juntamente com o consulado ultra-direitista de Sidónio Pais são a matriz ideológica do fascismo português.
Apesar da falta de coerência política dos republicanos e da sua actuação tantas vezes brutal sobre os trabalhadores e os seus sindicatos, a crueldade dos apaniguados do monárquico Paiva Couceiro e o período sidonista não parece ter merecido um estudo aprofundado que torne mais claro o conhecimento do fascismo português.
Na Guerra Civil Espanhola, dizendo-se neutral, a duplicidade de Salazar manifestou-se no apoio descarado aos franquistas impondo aos empresários e banqueiros a abertura de créditos, enviando combatentes nacionalistas voluntários, os “viriatos”, fazendo propaganda acérrima do franquismo. Já antes dera apoio à ditadura de Primo de Rivera, fornecendo mantimentos. Pode dizer-se que a propaganda em Portugal se integrou na cruzada religiosa do franquismo contra o comunismo.
No tempo seguinte, numa de “neutralidade colaborante”, apregoava a famosa Aliança Luso-Britânica, não se coibindo de vender volfrâmio e mantimentos aos alemães, fazendo com os mesmos negócios escuros através da Suíça , enviando “voluntários” a chamada “Brigada Azul” para combater na frente Russa, enquanto a fome grassava em Portugal.
A narrativa de que Portugal acumulou ouro, durante o consulado de Salazar, esquece que uma parte substancial desse ouro foi proveniente das negociatas com os nazis, sendo Portugal intermediário na lavagem de ouro nazi em Macau. O pagamento alemão fez-se através de lingotes com a cruz suástica depositados no Banco de Portugal.
Tudo isto enquanto o povo português vivia na mais completa miséria, com fome, sem assistência médica, sem escolas, sem informação livre, com carências de toda a ordem, a par de uma violenta opressão política, ferreamente controlada pela repressão da polícia política, a PIDE e por uma censura castradora sobre todo o tipo de informação, onde só havia uma verdade, a do regime do partido único.
A imitação de programas agrícolas italianos como a campanha do trigo e a colonização interna, de duvidosa eficácia, alteraram a fisionomia do país rural, a primeira beneficiando os terratenentes, especialmente no Alentejo, a segunda, destruindo práticas comunitárias ancestrais.
O enquadramento social, a exemplo da Alemanha nazi, era feito por organizações paramilitares, pela Legião Portuguesa, no caso dos adultos e pela Mocidade Portuguesa no caso dos jovens. Estiveram várias vezes no nosso país delegações e instrutores vindos da Alemanha nazi e da Itália de Mussolini para enquadrarem estas organizações. As visitas de dignitários fascistas e nazis, recebidos e celebrados com pompa e circunstância eram recorrentes.
Com a cedência, sob pressão dos ingleses da Base militar das Lages aos americanos e a aproximação da vitória ao Aliados, tais acções passaram a ser dissimuladas e até se assistiu à afirmação do ditado, que iria “conceder” eleições tão livres como na livre Inglaterra, enquanto a constituição do Estado Política do Estado Novo se reclamava de antidemocrática e nacionalista.
Esta situação foi sol de pouca dura, pois a violência da repressão voltou a fazer-se sentir, nomeadamente com a eclosão das lutas anti coloniais e das movimentações estudantis.
Só por ignorância ou má-fé é possível considerar que o período da ditadura de Salazar e Caetano foram menos maus, merecedores do apreço com “respeitinho e boas maneiras”.
Hoje, em que novos fascistas começam a levantar a cabeça e já ousam cantar loas às políticas de Salazar e Caetano, omitindo as consequências das mesmas, que condenaram o país a um atraso social enorme, a um desemprego endémico que obrigou à emigração tantas vezes clandestina, sem esquecer que mergulhou a juventude numa guerra colonial inútil e estupida.
Tomar conhecimento do passado e reflectir criticamente sobre o mesmo sempre ajuda à consciência cidadã e à democracia, prevenir-se contra os avanços da extrema-direita caceteira, xenófoba e racista, ao serviço do capitalismo neoliberal que tudo fará para destruir o Estado Social para pôr em causa os Direitos Humanos e a Justiça Social.