Alegre palhaçada

porTiago Ivo Cruz

17 de janeiro 2012 - 11:45
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Tal como o primeiro-ministro não considero um crime ser membro de um partido, mas foi ele que criminalizou politicamente este tipo de conduta e não tem direito a fazer de conta que estas nomeações não são responsabilidade do PSD e do CDS.

Bastaram seis meses de Governo da troika para surgirem sinais de fim de regime, uma certa atmosfera latente de abismo. A honestidade e frontalidade política prometida por Passos Coelho transformou-se num heroísmo bacoco e vazio. Caiu o véu sobre a maçonaria e Passos não mais fez que repreender o seu líder parlamentar, provavelmente porque não o pode despedir. Surgem as nomeações incompreensíveis para a EDP e Passos finge que nada sabe sobre o assunto, é um assunto privado. São publicados documentos internos do governo que deixam claro que vamos falhar as metas do défice mas Passos recusa-se a admitir que vai novamente aumentar impostos. Seguem-se as nomeações para a Águas de Portugal, de momento as mais graves em termos de conflito de interesses e, Passos tenta convencer-nos que mantém a sua absoluta coerência e até nem distribuiu muitos postos à sua malta. Manuel Frexes, nomeado para Presidente da AdP foi gestor da PT e consultor da ONU na área das telecomunicações, cargos onde se chega apenas por pressão política. O caso de Álvaro Castello-Branco, também nomeado para a AdP mas pelo CDS, é mais flagrante. Segundo este documento público começa por ser deputado na VIII, IX e X legislaturas, segue depois para cargos camarários e direções de empresas públicas ligadas a energia. Tudo nomeações e cargos políticos.

Tal como o primeiro-ministro não considero um crime ser membro de um partido, ou ocupar lugares por confiança política, mas foi ele que criminalizou politicamente este tipo de conduta e não tem direito a fazer de conta que estas nomeações não são responsabilidade do PSD e do CDS.

No entanto, posso levantar dúvidas quanto à isenção profissional e política destas pessoas. Ambos são autarcas, vão dirigir uma empresa pública a quem as autarquias devem 400 milhões de euros, essa é aliás e segundo o PM uma das vantagens para a sua nomeação. Mas isso quer dizer apenas que estas duas pessoas têm o objetivo de arranjar forma de amnistiar as dívidas das autarquias à AdP e isso é uma posição de influência e pressão financeira extraordinária sobre o poder local, poder que passa a ser controlado pelos boys do PSD e CDS. Não peço que admitam que são puras nomeações de poder mas não me peçam para engolir a coisa como nomeações de suma excelência de gestão empresarial.

Todo este deboche político a que a maioria se entregou esvaziou Passos Coelho da sua autoridade moral, autoridade sobre a qual Passos construiu a sua forma de liderar e governar. O gabinete do primeiro-ministro foi assim atingido de morte, colocou-se numa posição insustentável de ser o dono de uma coligação em que não manda e de um partido que não lhe obedece.

Tiago Ivo Cruz
Sobre o/a autor(a)

Tiago Ivo Cruz

Doutorando na FLUL, Investigador do Centro de Estudos de Teatro/Museu Nacional do Teatro e da Dança /ARTHE, bolseiro da FCT
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