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Ainda sobre o rendimento mínimo

A classe média portuguesa, quando aceitou o argumento do rendimento mínimo, não percebeu que os seus rendimentos estão a ser desviados para manter saudável a grande finança e não os mais pobres.

Não me parece, nesta fase da campanha, útil despejar estatísticas e factos observáveis e mensuráveis que deitam por terra o argumento dos “preguiçosos do rendimento mínimo”. Parece-me bem mais útil tentar levantar algumas questões pertinentes.

Desde as legislativas de 2009 e desde o início da crise desencadeada pelo capitalismo financeiro que esta pequena (ou será pequeníssima…) parcela de dinheiro da solidariedade social destinada aos mais desfavorecidos, se tornou num tema gigante na nossa sociedade. O agravar da crise, o início da recessão económica e a entrada do FMI agudizaram este tema. Claro para que haver um tema em discussão na sociedade, é necessário um veículo e esse foi, como todos sabemos, Paulo Portas e a sua grande arma política: o populismo vazio!

Este argumento, que no fundo é um incentivo ao ódio e à repulsa dos mais pobres de entre os mais pobres, tinha, inicialmente um objectivo claro – tocar no coração dos demais pobres que tendo um trabalho, uma pensão ou uma reforma, viviam paredes-meias com os beneficiários deste rendimento. Virar pobres contra pobres, nem mais, dividir para reinar. No entanto, nos últimos meses o argumento estendeu-se à classe média e é nesta fase que assume proporções inaceitáveis. A classe média, supostamente esclarecida e que no fundo só existe no nosso país fruto do desenvolvimento do Estado Social – o mesmo que garante o rendimento mínimo – assumiu o ataque as mais pobres como discurso central sobre a crise. Deixaram de ser só os pobres contra os pobres para passarem a ser “os de cima contra os que estão logo abaixo”. Mais uma vez, dividir ainda mais para reinar ainda mais!

O documento da Troika veio trazer o medo a essa classe média – ameaça com o fim dos serviços sociais, acaba com uma série de deduções fiscais, promete mais desemprego e ameaça com cortes nas pensões acima dos 1500 euros. A classe média deixou de estar “segura” e coberta por um Estado Social suficiente para ficar no hall de entrada dos próximos a serem atingidos pela crise financeira. Aliás, essa é mesmo a estratégia ideológica da crise – saturar a classe média de informação sobre a insustentabilidade do Estado Social, para a curto prazo a fazer aceitar a diminuição dos seus rendimentos para os transferir para o grande capital!

E foi neste enredo que caiu a classe média portuguesa quando aceitou o argumento do rendimento mínimo – não percebeu que os seus rendimentos estão a ser desviados para manter saudável a grande finança e não os mais pobres, onde a fatia do orçamento é tão baixa que nunca justificaria ter assumido semelhante importância.

Mais uma tarefa da esquerda para o futuro: retirar a classe média portuguesa da ilusão de que o Estado Social é o responsável pela crise e devolver-lhe os argumentos da solidariedade social, para que possa perceber que o quem lhe está a ir aos bolsos não são os mais pobres mas quem criou a crise da qual está a tirar vantagem!

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