Ainda sobre as Jornadas Mundiais da Juventude católica

porSandra Cunha

13 de agosto 2023 - 23:58
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Esta vassalagem do Estado português à Igreja Católica é um insulto à nossa democracia e à nossa laicidade. Afinal, a laicidade garante que todas as religiões sejam tratadas por igual. Depois disto, alguém pode argumentar que é o caso?

Talvez não seja preciso dizer, mas aqui vai: não me incomoda nada aquilo em que cada um acredita. Se há quem queira acreditar que um zombie judeu que é o seu próprio pai garante a eternidade se se comer a sua carne e se telepaticamente lhe jurarmos fidelidade para que ele possa remover uma força malévola que existe na humanidade porque uma mulher criada a partir de uma costela foi convencida por uma serpente falante a comer uma maçã mágica, tudo bem. Até aos 3 anos também acreditei no Pai Natal. E, neste preciso momento, há quem acredite que decorre uma guerra intergaláctica entre seres intergalácticos. Não se sabe quem está a ganhar, mas paciência. Cada um acredita no que quer.

Agora quando se trata da subjugação de um Estado laico à Igreja Católica, a história é outra. E ainda mais quando essa subjugação, que apresenta como único argumento a existência de uma maioria católica, se corporiza no financiamento público de uma festa religiosa privada. Os gastos foram aos milhões. Financiou-se alojamento, alimentação, transporte, serviços, papel higiénico, infraestruturas e sabe-se lá que mais. Falam-nos do retorno, mas as evidências deixam-nos céticos: de repente, já se dizia que o retorno era espiritual, que trocávamos euros pela alegria dos peregrinos. Peregrinos esses que, na sua maioria jovens e sem condições para esbanjar dinheiro, não gastaram as fortunas anunciadas em alojamento, até porque o Estado Português lhes fez o favor de garantir pavilhões, ginásios, sacos-cama. Também não gastaram fortunas em turismo, até porque passaram horas nas filas para participarem em missas e em atividades programadas pela Igreja. Não gastaram em transportes, os nossos impostos fizeram-lhes essa cortesia. Não gastaram em alimentação, já que as cadeias internacionais de fast food ofereceram menus a preços contidos. O retorno, dirão muitos, insultando quem precisa mesmo da ação do Estado, é simbólico. É que com isto Portugal mostra-se como aluno aplicado da Igreja, financiando a festa, e ainda agradecendo à Igreja católica por se ter deixado financiar por um Estado laico, e isto apesar de ser das organizações mais ricas e poderosas do mundo.

Do seu lado, a Igreja pouco ou nada investiu. Em vez disso, conseguiu cobrar taxas de participação aos peregrinos e, pasme-se, aos voluntários, e ainda recusou passar recibos: afinal, é uma “entidade sem fins lucrativos”. Para a Igreja, não há dúvida de que houve retorno e lucro, e ainda recebeu de mão beijada a propaganda oferecida pelo Estado, assim como uma comunicação social acrítica. Nenhuma outra religião seria agraciada com este estrondoso investimento público ou com a participação dos representantes máximos do país nas celebrações religiosas — e ainda bem, era o que devia ter acontecido aqui. Esta vassalagem do Estado português à Igreja Católica é um insulto à nossa democracia e à nossa laicidade. Afinal, a laicidade garante que todas as religiões sejam tratadas por igual. Depois disto, alguém pode argumentar que é o caso?

Sandra Cunha
Sobre o/a autor(a)

Sandra Cunha

Feminista e ativista. Socióloga.
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