Está aqui

Ainda é possível viver sem um tabu?

Por cada dia que passa, subirão de tom as perguntas sobre as eleições de 2023, que, aliás, foi o próprio primeiro-ministro a sugerir, procurando-se que revele se é de novo candidato ou se delega.

A mansidão do verão frescote vai sepultando polémicas. A festa comemorativa da vitória do Sporting, que ninguém antecipou, o atropelamento de um trabalhador pelo carro do ministro, que ninguém explicou, tudo isso o primeiro-ministro tem vindo a arrumar como “casos e casinhos”, enquanto o Governo promete a chuva de dinheiro do PRR. Num sinal meridianamente claro da estratégia de um Governo em autopreservação, Costa repete que as autárquicas são para escolher quem vai gerir a chuva da fortuna. O poder local subiu para o pedestal dos distribuidores dos milhões. Assim se vai indo. O problema é que ninguém sabe para onde e há quem comece a fazer perguntas.

O tabu da direita

Como se tem visto, o PSD tem um problema, e não se chama Passos Coelho. É mesmo Rui Rio, que vai dando indicações de estar farto de si próprio. Se alguém enuncia o seu tabu, não é qualquer oposição interna, que, aliás, parece não contar, mas antes a atabalhoação dos tenentes do presidente do PSD ou até a sua sugestão repetida de que as autárquicas podem dar barraca. As sondagens não são generosas: derrota de Moedas em Lisboa, empate no Porto com a CDU e em Almada a coligação das direitas empatada com o Bloco. Ao colocar objetivos inalcançáveis, Rio alimenta a convicção de que preferiu a sua própria Lei de Murphy.

Naturalmente, está em causa muito mais do que uma etiqueta. Todo o confronto que escolhe candidatos a candidatos no PSD tem o subtexto das alianças futuras e da trumpização do estilo político. Há protagonistas para toda a paleta de escolhas, mas é de esperar que depois de Rio venha quem prometer imitar os republicanos norte-americanos.

O tabu do PS

O tabu de António Costa é, no entanto, mais clássico, repetindo na forma um precedente ilustre: por cada dia que passa, subirão de tom as perguntas sobre as eleições de 2023, que, aliás, foi o próprio primeiro-ministro a sugerir, procurando-se que revele se é de novo candidato ou se delega e espera uns meses pelo putativo cargo de presidente do Conselho Europeu. Ambas as opções são difíceis: disputar uma eleição em tabu provoca uma campanha infernal, em que não se perguntará outra coisa; sair sem o ter anunciado aos eleitores seria a repetição tóxica de Barroso. Também internamente a escolha é complicada, pois não se vê como o Presidente aceitaria uma substituição de primeiro-ministro sem ser sufragada em eleições, ou até como o sucessor o pudesse aceitar.

Restam duas hipóteses para quebrar o tabu. A primeira seria esperar, disputar eleições e cumprir mesmo um terceiro mandato, esticando um esgotamento que já é indisfarçável. A segunda, e é de perguntar se naquele estado-maior não continua a haver quem ame o abismo, seria a aventura de provocar eleições já, criando uma crise artificial, para que a data pessoalmente conveniente ao primeiro-ministro já calhasse perto do fim de novo mandato. No segundo cenário, uma remodelação seria dispensável e até prejudicial ao grande plano.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)