Afinal, este país para que(m) serve?

porHelga Calçada

10 de maio 2026 - 16:30
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Se em Espanha, é possível reduzir o IVA dos bens essenciais e travar os preços dos combustíveis, assim como na Polónia, não o é em Portugal porquê? O que está mal no nosso país não é uma inevitabilidade, antes uma escolha política de enriquecimento de alguns em detrimento do empobrecimento da maioria.

Nos últimos meses, temos sido assolados com as várias propostas, e propósitos despudorados, deste governo. Desde enfraquecer ainda mais a posição contratual de quem trabalha, por via do inaceitável pacote laboral, passando pelo desmantelamento gradual e programado do SNS, promovendo os seguros de saúde que alimentam o negócio da saúde privada, ao estrangulamento dos orçamentos familiares, sem aplicação de uma única medida de mitigação do aumento abissal do custo de vida.

Outros exemplos podiam ser dados, pois este governo envergonha em toda a linha. E a maioria parlamentar que o alimenta não envergonha menos.

Imputar à guerra toda a responsabilidade do estado das coisas é desonesto, apoiar essa mesma guerra por via da base das Lajes é ultrajante.

Este país chegou a um estado em que não serve para ninguém, aos jovens promete precariedade laboral eterna e o sonho inconcretizável de terem uma casa, aos menos jovens propõe que se endividam o resto das suas vidas para pagar rendas estratosféricas, aos mais velhos promove as poupanças para que paguem as prestações exorbitantes dos lares que não respondem ao elevado envelhecimento demográfico.

Afinal, este país para que(m) serve? As gasolineiras lucram milhares de milhões, assim como as redes de distribuição. E a população agoniza com os preços sempre a subir e os salários inalterados.

Aquela pergunta, embora retórica, reflete o que é indesejável e contraditório numa sociedade democrática como a nossa.

A resposta é mais do que óbvia, serve apenas para quem lucra com a fatura que a maioria paga.

Se aqui ao lado, em Espanha, é possível reduzir o IVA dos bens essenciais e travar os preços dos combustíveis, assim como na Polónia, não o é em Portugal porquê? O que está mal no nosso país não é uma inevitabilidade, antes uma escolha política de enriquecimento de alguns em detrimento do empobrecimento da maioria. Não é uma catástrofe que aconteceu sem avisar com a antecedência devida como a que há uns meses sofreu a população da região de Leiria. Catástrofe à qual continua, inexplicavelmente, a tardar a resposta do Estado, que apresenta agora a solução de seguro obrigatório contra catástrofes. Isto é mesmo gozar com todos nós!

O diagnóstico está claro, o nosso país está doente, e sabemos quem são os responsáveis.

Há, contudo, sinais vitais fortes. Este 25 de Abril foi coberto por um mar de gente que, ao celebrar a liberdade, gritou que não se compadece com esta doença e que está disposto a arregaçar as mangas para tratar do país em que vive. Este 1º de Maio foi o espelho de que quem trabalha não vai desistir de lutar contra o retrocesso dos seus direitos. O povo não está adormecido e não vai baixar os braços. Engane-se quem pensa o contrário.

Helga Calçada
Sobre o/a autor(a)

Helga Calçada

Jurista e dirigente do Bloco de Esquerda.
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