Acima das nossas possibilidades

porJosé Manuel Pureza

25 de maio 2013 - 11:39
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A austeridade imposta aos pobres e à classe média tem como contrapartida um país em quinto lugar na compra de automóveis de topo de gama e em que bancos em risco de falência atribuem prémios milionários aos seus gestores.

Não fosse a troika e não haveria dinheiro para pagar salários nem pensões", repetem até à exaustão os arautos da intervenção estrangeira em Portugal. E logo acrescentam que é assim porque fomos vivendo longamente acima das nossas possibilidades, esbanjando dinheiro a rodos em saúde, em políticas sociais, num funcionalismo inflacionado ou num sistema educativo agigantado.

O argumento seria de ter em conta se não fosse duplamente falso. É falso, em primeiro lugar, porque num país socialmente tão frágil a escolha de reforçar as seguranças e os direitos dos mais pobres não foi gordura mas músculo. Os serviços públicos universais, o salário mínimo, os apoios aos desempregados e aos pobres não são um luxo, são imperativos mínimos da democracia e da coesão social. E é falso, em segundo lugar, porque a intervenção da troika não fez recuar aquela parte do País que sempre viveu acima das possibilidades da grande maioria, antes a anima. A austeridade imposta aos pobres e à classe média tem como contrapartida um país em quinto lugar na compra de automóveis de topo de gama, um país cujo Governo faz a apologia da colocação de capitais em praças fiscais que institucionalizam a fuga à tributação e um país em que bancos em risco de falência atribuem prémios milionários aos seus gestores.

A notícia destes dias é que em pleno apogeu de diminuições nos salários de um povo que passou a fazer do quotidiano um exercício de pilotagem sem horizontes, no preciso momento em que a troika exige a Portugal que se concretize cada cêntimo dos cortes anunciados nas reformas, o Banif decidiu pagar um prémio de gestão de 533,7 mil euros a uma sua ex-administradora no Brasil, a adicionar aos 448,6 mil euros de salário anual que lhe foram pagos.

Fora o Banif uma entidade privada como outra qualquer e comportasse-se em conformidade com tal estatuto e o chocante do episódio seria apesar de tudo confinado ao domínio do mau exemplo. Mas não é assim. É muito mais grave. O Banif é um banco sob intervenção do Estado, que nele injetou 1,1 mil milhões de euros, passando a deter desde então 99,2% do seu capital. Que a administração do Banif não tenha tido uma palavra sequer de crítica por parte do acionista quase único é revelador do pensamento desse acionista quase único quando se trata de impor limites aos desmandos de quem sempre surfou a onda da crise. No prémio milionário da administradora do Banif está, portanto, sintetizada a crise toda: salvação dos devedores privados pela geração de dívida pública, transferência do ónus dos acionistas para os contribuintes sem que aqueles percam um grama sequer da sua sobranceria e se privem de se atribuir a si mesmos um cortejo de regalias a suportar pelo erário público. E até mesmo simpatia e cumplicidade do Estado para com quem administra um offshore.

O caso do Banif está longe de ser solto: os presidentes executivos das empresas cotadas no PSI-20 receberam em 2012 mais 6% do que haviam recebido no ano transato, num total de mais de 15 milhões de euros. Sabendo que em Portugal a média das remunerações de quem trabalha diminuiu cerca de 7,2% no mesmo período, a conclusão é simples: crise é o nome que damos à gigantesca transferência de rendimento de quem sempre viveu abaixo das suas capacidades para quem sempre viveu acima das nossas possibilidades.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” em 24 de maio de 2013

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda
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