Academia portuguesa: laboratório onde se testou o Pacote Laboral

porAdriana Temporão

02 de junho 2026 - 14:39
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Para qualquer investigador, presente ou passado, o Pacote Laboral, apresentado agora como uma reforma laboral inovadora e benéfica, é uma realidade ancestral e extremamente prejudicial para os trabalhadores e para a própria ciência em Portugal.

Desafio quem considera que o Pacote Laboral é bom para o país, para os trabalhadores, se é que há alguém, a conversar com alguém que seja ou já tenha sido investigador em Portugal, principalmente bolseiro. Para qualquer investigador, presente ou passado, o Pacote Laboral, apresentado agora como uma reforma laboral inovadora e benéfica, é uma realidade ancestral e extremamente prejudicial para os trabalhadores e para a própria ciência em Portugal.

Faço este paralelo, entre investigadores bolseiros e os trabalhadores que seriam afetados pelo Pacote Laboral, porque aquilo que agora é apresentado como modernização do trabalho, uma evolução, foi precisamente o que me fez abandonar a investigação, e não sou caso único.

A ciência em Portugal, apesar de ter melhorado ligeiramente para os investigadores contratados, a manutenção do estatuto de bolseiro, ainda a mantém como um laboratório de precariedade laboral. Muitas das medidas que hoje são defendidas como inevitáveis, como a flexibilidade, os contratos temporários, já são a realidade de muitos investigadores, especialmente dos bolseiros. O resultado disto não foi nem é mais inovação nem mais dinamismo, foi e é apenas desgaste dos trabalhadores científicos; são anos a viver sem conseguir planear uma vida, sem estabilidade financeira, sem poder pensar em casa ou futuro, sempre dependente de quando seria o dia em que se teria que voltar para casa dos pais ou pedir-lhes ajuda financeira.

Os investigadores bolseiros passam anos a trabalhar para, não só produzir currículo e publicações, mas também em nome de instituições que beneficiam do mérito do trabalho mas negam reconhecê-los como trabalhadores com plenos direitos, precisamente o que aconteceria com este Pacote.

Posso dizer que esta flexibilidade só beneficiou um lado, era normal trabalhar noites, fins de semana, feriados; esperado que estivéssemos permanentemente disponíveis; que o amor à camisola nos levaria a aceitar e justificar tudo.

No fim, muitos acabam por sair, tal como eu. Não por falta de competência, não por falta de vocação, mas porque a precariedade mascarada de inovação corrói qualquer perspectiva de futuro.

Quando ouço falar em mais flexibilidade laboral, menos rigidez nos contratos, o paralelo entre o modelo da ciência portuguesa é impossível de fazer. Já vivi isto, e vi o resultado: burnout, fuga de cérebros, desistência, vidas suspensas. Passei uma boa parte da minha vida a ouvir que era preciso aguentar, por amor à camisola, mais um contrato precário, publicar mais um artigo e para isso trabalhar horas sem fim, fazer mais um sacrifício. A dada altura percebi que o problema não é transitório, é estrutural, e uma vez estabelecido o combate torna-se mais difícil.

O que hoje apresentam como modernização do trabalho foi exatamente aquilo que me fez desistir da investigação. E temo que agora queiram transformar a exceção dos investigadores na regra para todos os trabalhadores. O Pacote Laboral não é inovação. É apenas a normalização de um desgaste a uma escala maior.

Adriana Temporão
Sobre o/a autor(a)

Adriana Temporão

Investigadora. Doutorada em Ciências Biomédicas na área de Parasitologia. Ativista social, ambiental e contra a precariedade dos trabalhadores científicos em Portugal.
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