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Abutres no desemprego

CDS e PSD parecem, por vezes, aqueles arguidos que necessitam da reconstituição do crime para poderem assumir todo o mal que fizeram.

Factos são factos. Mais de 70 abutres espanhóis recusam-se a passar a fronteira entre Espanha e Portugal porque, devido às mais fortes restrições das políticas comunitárias no nosso país, não encontram suficiente quantidade de comida nos campos portugueses para que se possam alimentar. Basicamente, tendo em conta que são necrófagos, não há tantas carcaças. As analogias são mais que muitas e não se prendem só com a desertificação do interior ou com as assimetrias de um país que faz carne para canhão de quem vive longe do mar. As políticas europeias traçadas a regra e esquadro para o empobrecimento de quem era acusado de viver acima das suas possibilidades não mudaram assim tanto após 2015, momento em que o intervencionismo desocupou o país, clamando pelo Diabo. Vivíamos a cultura da décima do défice. Os abutres de então, tal a abundância de carcaças, desfrutavam de melhor alimento.

Vendo que o Diabo não chegava nem por repetidos movimento de genuflexão, grifos houve que foram compelidos a mudar de discurso. Antes, toda uma encenação contra o processo revolucionário em curso, em muito semelhante ao "amplo plano demoníaco" que forças islamitas agitam no Senegal contra a visita de Rihanna, mensageira de um "centro de perversão universal". Mas meses após, nenhuma mensagem chegava. A tese da cabala assumia a posição perorada. Tramada que estava a trama pela ausência de más notícias e pela solidez insuspeita da geringonça, a realidade assoma e impõe-se.

Entretanto, ambos os líderes da PàF saíram de cena, o país recompôs-se, o antes ridicularizado Centeno toma de assalto a presidência do Eurogrupo e as maiorias-parlamentares-fruto-de-acordos-entre-partidos-não-ganhadores-de-eleições passam a ser uma possibilidade na contabilização pós-eleitoral da Direita. Assunção Cristas refere, piscando o olho ao PSD após a eleição de Rui Rio (e sem uma palavra sobre uma das duas forças ter de ganhar eleições), a necessidade de "ter uma maioria de 116 deputados" no conjunto do dois partidos para uma "alternativa séria ao governo das esquerdas unidas". É uma legítima negação. CDS e PSD parecem, por vezes, aqueles arguidos que necessitam da reconstituição do crime para poderem assumir todo o mal que fizeram.

Por estes dias, a título de exemplo, os abutres espanhóis alimentam-se no seu país com uma taxa de desemprego de 16,7%. E por lá ficam. Ainda com tantos rendimentos para repor e com tanto por fazer, Portugal foi o segundo país na UE onde o desemprego mais caiu num ano, descendo para os 8,2% (já abaixo dos 8,7% nos 19 países da Zona Euro, ainda acima dos 7,3% da média dos 28 países da UE). Em 2015, com os olhos cravados nos 12,2% de desemprego em Portugal, muitos abutres teriam a tentação de passar a fronteira em voo picado.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 31 de janeiro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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