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Abrir o campo dos possíveis por José Soeiro

“Não é o desejável, mas é o possível” não é só um convite à paralisação e ao esvaziamento da esquerda, é mesmo uma das formas mais agressivas de reduzir o possível ao que existe e de impor o que existe como a única alternativa.

O Governo prometeu em 2008 que ia acabar com os estágios não remunerados. Foram precisos dois anos para que uma proposta concreta surgisse e a lei que está agora em discussão pública tem uma cláusula para excluir os “trabalhadores independentes”. Ou seja, bastou uma pressão dos escritórios de advogados e o Governo aceitou garantir que a escravatura continua nos casos em que ela é, precisamente, mais gritante, porque o estágio é obrigatório para se aceder à profissão: caso dos advogados ou dos arquitectos.

Esta semana, o Bloco confrontou o Parlamento com esta decisão. E a porta-voz do Partido Socialista, irritada com “um partido que anunciou uma moção de censura”, respondeu-me, em defesa da escolha do Governo, que deixar de fora escritórios de advogados e ateliers de arquitectura “não é o desejável, mas é o possível”.

“Não é o desejável, mas é o possível” resume bem a forma como o Governo olha para o país e para as dificuldades, o seu conformismo perante os poderes, mas também o estado de espírito da maioria que o suporta. Há mais de 200 empregos que se perdem por dia? “Não é o desejável, mas é o possível”. A precariedade não pára de aumentar? “Não é o desejável mas é o possível”. O Estado, em lugar de respeitar a lei e o seu próprio programa, tem este ano mais 40 milhões para “contratar” falsos recibos verdes? “Não é o desejável, mas é o possível”. Mais de 15 mil estudantes já perderam a bolsa de estudo e muitos ponderam abandonar a Universidade? “Não é o desejável, mas é o possível”. A banca não paga os seus impostos e a sua taxa de IRC é na verdade menor do que qualquer mercearia? “Não é o desejável, mas é o possível”. O que se perdoou às mais-valias é superior ao que se cortou nos salários? “Não é o desejável, mas é o possível”. Os cortes nos apoios sociais aumentam a pobreza? “Não é o desejável mas é o possível”.

“Não é o desejável, mas é o possível” não é só um convite à paralisação e ao esvaziamento da esquerda, é mesmo uma das formas mais agressivas de reduzir o possível ao que existe e de impor o que existe como a única alternativa. Sou dos que acham que Portugal precisa de uma esquerda aberta, muito plural, que rejeite os preconceitos do costume – e que se acentuaram nos últimos dias a pretexto da moção de censura, vindos das pessoas mais improváveis, com uma diabolização ridícula da esquerda “radical que se esconde no Bloco”. Sou dos que acham que é preciso uma esquerda que junte sectores para além do Bloco de Esquerda, que faça todos os diálogos, que junte uma maioria social para transformar o país. Mas a unidade dessa esquerda terá necessariamente de partir de uma recusa: a recusa desta ideia de que a política que temos hoje no Governo “não é a desejável, mas é a possível”. Esse é também o fundamento da censura ao Governo. Se há uma razão de existir para a esquerda não é certamente encarar a política como “a arte do possível” mas, pelo contrário, encarar a política como a arte de tornar possível aquilo que é necessário. Sem esse ponto de partida, o caminho não nos levaria a lado nenhum.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
Termos relacionados Moção de Censura 2011
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