25 de Abril de 1974 – 2026
Em 1974, quem vivia longe de Lisboa não viveu nem experienciou o dia da mesma forma. Não houve tanques na rua, nem multidões concentradas, nem a sensação imediata de que tudo tinha mudado. Houve, muitas vezes, silêncio. E houve medo, porque o medo já lá estava. Vivia-se no medo e na iminência constante de uma guerra.
Nas palavras da minha mãe, que à data do 25 de Abril de 1974 era uma criança de 9 anos, na vila de Santa Maria da Feira, brincava com uma amiga quando aviões de caça sobrevoaram os céus. Instintivamente, baixaram-se, convencidas de que o mundo iria acabar ali. A inocência de duas crianças, que frequentavam uma escola feminina onde a fotografia do ditador estava afixada na parede, não era muito diferente da grande maioria do povo português que vivia fora de Lisboa.
Nada mais assusta do que o desconhecido. E, naquele dia, o medo assombrou muita gente. Medo da mudança, medo do que poderia vir a seguir, medo do medo. Durante décadas, o país habituara-se a viver sob o controlo de um ditador, com pouca informação e pouquíssima margem para questionar. De um dia para o outro, tudo parecia incerto. E, para quem estava longe dos centros de decisão, essa incerteza sentia-se ainda mais, dando origem ao receio do que se poderia estar a passar.
A liberdade não chegou como uma evidência imediata. Foi sendo percebida aos poucos.
Chegou quando os militares entraram nas escolas para retirar a fotografia do ditador. Com esse gesto, terminou também a propaganda que marcava gerações, como a chamada “Lição de Salazar”, que ensinava as crianças a serem submissas ao regime, pouco questionadoras e a viverem no medo. Chegou quando as rádios começaram a passar músicas até então proibidas. Para muitas famílias rurais, um dos sinais mais fortes foi o fim anunciado da Guerra Colonial.
Os jornais começaram a chegar às aldeias sem censura. As pessoas passaram a poder falar de política, a escrever sem receio, a reunir-se, a organizar-se, a dizer o que pensavam. E assim, gradualmente, chegou o direito ao voto livre, a possibilidade de escolher quem governa, o acesso mais amplo à educação, os avanços na saúde e os direitos laborais que antes não existiam.
O 1.º de Maio encheu ruas e vilas, com muitos a deslocarem-se pela primeira vez para celebrar em liberdade, regressando com cravos e histórias que levavam essa mudança a quem tinha ficado.
Os afetos deixaram de ser reprimidos. Os jovens passaram a poder namorar em público sem medo de repreensão. Deixou-se de baixar a cabeça perante figuras de autoridade.
E os militares não ficaram apenas nos centros urbanos. Através das Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA, entre 1974 e 1975, chegaram às aldeias com ensino, cuidados de saúde, cultura e esclarecimento político. Ensinaram adultos a ler e a escrever, prestaram cuidados básicos de saúde, levaram cinema, teatro e música e explicaram o que era a democracia. Para muitos, foi o primeiro contacto com um país diferente.
Esses militares, para tantos inicialmente figuras assustadoras, foram, na verdade, para muitas comunidades, agentes de mudança. Ajudaram a quebrar o isolamento e a aproximar o mundo rural de uma nova realidade.
E foi assim que o medo começou, lentamente, a dar lugar à confiança.
Mesmo tendo começado em Lisboa, o 25 de Abril mudou a vida de todo o país. Mudou a vida dos meus bisavós, dos meus avós, dos meus pais, que eram ainda crianças. Mudou a vida de quem vivia nas cidades e de quem vivia nas aldeias, de quem estava afastado não só geograficamente, mas também politicamente. Pessoas mergulhadas num profundo desconhecimento, em pobreza extrema e numa desigualdade esmagadora passaram, devagarinho, a poder erguer a cabeça, a falar, a saber mais, aproximando-se do mundo.
É verdade que nem todos viveram Abril da mesma forma. Mas todos foram transformados por ele.
Hoje, essa realidade começa a parecer distante. Já não temos connosco muitas das gerações que viveram antes da revolução e fala-se pouco do que era, de facto, viver em ditadura. E, quando a memória se esbate, abre-se espaço para a distorção.
Há quem desvalorize o 25 de Abril. Não por desconhecimento, mas por conveniência. Porque reconhecer o que mudou é reconhecer a importância da liberdade, da igualdade e dos direitos conquistados.
A ignorância, essa, está em quem aceita discursos vazios que negam a evidência. Portugal mudou. E muito. Com níveis de alfabetização incomparáveis, com acesso à informação e com liberdade de expressão, qualquer pessoa pode conhecer a história. Porque hoje todos nós, orgulhosamente em Portugal, sabemos ler e, sabendo ler, basta querer saber, querer pensar e refletir.
Quem se deixa enganar por discursos distorcidos sobre Abril não pode imaginar o que eles querem trazer de novo para nós. Mas façamos o exercício de refletir no que poderá ser. Nada, há 52 anos, era melhor do que hoje. Nada!
Reconhecer Abril exige responsabilidade. Exige que se fale, que se explique, que se escute. Entre gerações, dentro das famílias, no grupo de amigos, nas escolas, na sociedade. Que se mantenha viva a memória de um tempo de silêncio, de medo, de ausência de escolha, de pobreza e de desigualdade profunda.
Celebrar Abril não é apenas recordar, é manter viva a voz dos nossos antepassados e da sua luta.
É dizer que estamos atentos, que estamos vigilantes e vivos. Que queremos continuar a construir uma sociedade mais justa, mais livre, mais igual.
No dia 25 de Abril, sai-se à rua. Marca-se presença e celebra-se, porque a democracia não está garantida para sempre.
Celebremos Abril! Porque Abril celebra-nos a nós e à liberdade de sairmos à rua.
25 de Abril sempre. Fascismo nunca mais!