Abril 5.0

porManuel Afonso

27 de abril 2023 - 20:28
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O Abril que pode falar a quem agora desponta para a luta não é o mesmo que tem sido celebrado e musealizado ― ou não é, pelo menos, apenas esse. Assim, o risco de umas comemorações do meio centenário não forjem o novo elo da cadeia para as lutas do futuro é grande.

Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro de suor e sangue e algum sémen

 caminho do mundo que vos sonho.
Jorge de Sena, Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Entrámos, por estes dias, na contagem decrescente para os 50 anos da Revolução de Abril. E é useiro, neste contexto, evocar os versos de Sophia sobre um dia «inicial inteiro e limpo», lembrando-nos que, então, a poesia estava na rua.

Mas são os versos de Jorge de Sena, na sua Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya que, neste Abril, aqui e agora, me convocam. É a sua ideia de elo, entre passado e futuro, de conexão permanente entre gerações para não apenas lembrar Abril, mas para dele fazer arma para lutar por um futuro tão incerto. Mais do que evocar, há que convocar; mais do que celebrar um tempo, acelerar o tempo.

Como? Os desafios e perigos da comemoração das cinco décadas da Revolução são imensos e cheios de armadilhas. Inteligência e coragem, é ao que nos obrigam. Isto porque a revanche das direitas finalmente saiu da toca e mostra as garras. Saudosistas salazarentos têm agora força e partido e sabem sem esconder que o seu projeto é contra tudo o que nasceu de Abril. Já liberais, esses aduladores do autoritarismo do mercado, é pelo sequestro da palavra liberdade que pretendem matar Abril, diluindo-o em Novembro, exaltando a liberdade individual de ser explorado sem limites como horizonte máximo da felicidade humana. E sonham em fazer do cinquentenário o ano do seu assalto ao poder, secando do poder a fonte de Abril.

É, não só, mas também, num hiato geracional que procuram infiltrar esses venenos ― uns e outros, apoiados nas frustrações e confusões, bebendo de anos de mistificação e confusão ideológica, numa sociedade em que o cada-um-por-si é tantas vezes mascarado de virtude. E encontram terreno fértil também nas novas gerações para plantar estas ideias. Não sem contradições e resistências, não se fundando em convicções, mas em confusões; mas ainda assim com alguma possibilidade de sucesso.

Não porque as novas gerações sejam despolitizadas, por não lutarem ou por não nutrirem ideais e horizontes de liberdade. Pelo contrário: a geração que chega hoje à idade adulta, formada por uma década de todas as crises, é mais arguta, crítica e combativa do que as que a precedem imediatamente, moldadas que foram estas ― nós ― pelo mito do fim da história e pelas distopias tecnológicas alimentadas a crédito fácil.

Mas ainda assim, o hiato existe e nele procura a serpente depositar o seu ovo.

O Abril que pode falar a quem agora desponta para a luta não é o mesmo que tem sido celebrado e musealizado ― ou não é, pelo menos, apenas esse. Assim, o risco de umas comemorações do meio centenário que não forjem o novo elo da cadeia para as lutas do futuro é grande. Por um lado, porque a sua institucionalização às mãos de um governo e de um regime político que não despertam mais esperanças nem confiança terá o efeito o oposto ― fará de Abril um Outro, um não-lugar estranho ou até hostil, um animal extinto embalsamado ou uma bugiganga exótica musealizada. Mas não só: mesmo o tom e foco das tradições de esquerda e populares, que me formaram a mim e aos que me precederam, podem soar ritualistas e longínquos a quem enfrenta hoje novos combates, aparentemente tão diferentes dos de há 50 anos.

Acresce ainda uma dificuldade estratégica: num momento de acosso dos pressupostos mínimos da memória de Abril, é necessário cerrar fileiras em torno de mínimos denominadores comuns, como a defesa das liberdades basilares da democracia-realmente-existente. Nisto, corre-se o risco de esquecer a memória do Abril ousado, socialista e proletário que, sendo genético à Revolução, ficou por cumprir e, tantas vezes, por lembrar.

Talvez o caminho passe por ressignificar Abril à luz das novas lutas e movimentos sociais, olhando o passado com lentes do presente, encontrando lá o que tantas vezes não vimos

Talvez o caminho passe por ressignificar Abril à luz das novas lutas e movimentos sociais. Não de forma vazia e superficial, como numa operação de marketing; nem sem assentar raízes na memória da Revolução, sobretudo na sua força anticapitalista e popular. Antes olhando o passado com lentes do presente, encontrando lá o que tantas vezes não vimos; sem indulgências igualmente face às frustrações, aos descaminhos e ao que ficou por sonhar ― porque, para lá da resistência ao acosso da reação, é o Abril por sonhar que pode abrir portas ainda encerradas.

Essa renovação passa, talvez, por lembrar o que, não por acaso, se ouve cada vez mais: que o 25 de Abril nasceu em África; mas também que, por isso, há uma dívida por saldar na descolonização das mentes e das instituições que só se pode cumprir pelas lutas antirracistas atuais. Ou por pensar «a terra a quem a trabalha» como luta pela Terra e pela terra, por uma outra ligação, não mercantil, entre trabalho, participação popular e produção agrícola, essencial hoje para salvar o clima. E cruzando ambos estes temas, recordar que o agrónomo Amílcar Cabral se radicalizou na luta anti-imperialista ao entender que desertificação de Cabo-Verde e a fome por ela causada eram fruto do extrativismo colonial ― que hoje revive na expansão da exploração dos países africanos por gigantes fósseis como a Galp. Estes são exemplos entre outras fronteiras da memória e do futuro que nos cabe refundar, na intersecção entre as lutas pelo trabalho e pela habitação, pelos cuidados e pelo orgulho LGBT+, contra o novo fascismo e o voraz neoliberalismo. E talvez assim possam os cinquenta anos de Abril semear o futuro das novas revoluções.

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
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