A nossa Europa. O possessivo “nossa” dá agora vontade de rir.
Quando é que a Europa foi alguma vez “nossa”?
A Europa foi francesa e inglesa com as suas grandes construções e guerras e ódios mútuos e simétricos. Essa Europa de guerras que duravam cem anos olhou com deferência a elegância posterior do gótico. Foi Europa vitral de alegre luz coada e cristalina. Viveu logo a seguir o renascimento italiano e foi a Grécia que lhe deu o mote.
Aqui, no retângulo ibérico, chegavam apenas ecos do que por lá se passava. Andávamos então na pilhagem e vadiagem marítimas a piratear o futuro.
A Europa preparou durante quase um século a revolução, allons enfants de la patrie, e misturou-se com o povo quando a Bastilha se viu tomada. Por cá uma rainha enlouquecida elegia um comissário da polícia para perseguir na calada da noite a conspiração liberal, liberal e burguesa, viva a propriedade privada.
A Europa suou depois cheia de vapor, e pôs-se na fila para a entrada na fábrica. Essa também não foi a nossa Europa.
A Europa das grandes construções modernas de ferros e vidros, estações de comboios e eletricidades, a Europa de todas as vanguardas, futurista, surreal, libertária, proletária e burguesa, também ela chegou tarde a Portugal. Fomos belicamente europeus em La Lyz onde morremos que nem tordos, brutos e estropiados.
Partilhámos a crueldade abjeta e europeia do fascismo, mas sem a pompa e circunstância das massas ébrias italianas e o perfil dramático e obsceno do braço espasmódico na adoração hitleriana. Europa cadela com cio maligno. Ficámo-nos pela sombra salazarenta, astuta, perfidamente mesquinha do estado novo, escondidos atrás do biombo franquista, quando outra guerra, fatal como o destino, salvou o sistema, destruindo a Europa e reconstruindo o oxigénio económico do capitalismo.
A nossa Europa foi sendo tudo menos nossa. Estivemos sozinhos nas Nações Unidas a falar para o boneco, o mundo a condenar uma guerra colonial anacrónica e boçal, enquanto arrotávamos postas de pescada cheios de um orgulho solitário. Orgulhosamente sós, uma solidão imposta e abandonada, solidão enorme para um país tão pequeno, avariado e danificado pela vontade férrea de um autocrata provinciano.
Quando fizemos o fim disto tudo, a Europa, a nossa Europa, ficou atemorizada, era só o que faltava uma revolução na Europa da guerra-fria, na Europa manhosa e respeitosa do status quo, levantar ondas é que não, vamos lá a acabar com a bagunça.
Quando entrámos, todos comunitários e sorridentes, faltava-nos a massa muscular para acompanhar a caminhada da economia. A Europa abriu a porta devagar, entrem lá, e deu-nos uns cobres que esbanjámos na estroinice parceira. Aprendíamos então nas escolas os tratados fundadores e convenciam-nos da nossa nova qualidade de dupla cidadania – portuguesa e europeia. Há, portanto, agora, um evidente desacerto cognitivo.
A Europa hoje só se quer ver livre de nós, um empecilho, e classifica-nos como um tropeção geográfico. Há geografias que incomodam.
Entre nós, houve nas gerações mais próximas uma educação emocional para o ser europeu. Os jovens nascidos já depois da entrada, olham a Europa como um espaço natural. Nunca apresentaram bilhetes de identidade ou mesmo passaportes para ir a Badajoz e têm a mobilidade do avião em low cost. Não encaram o euro como a moeda que destronou o escudo. O escudo faz parte de uma arqueologia monetária já fossilizada. Só que isso não faz de nós criaturas mais europeias. Os amores devem ser recíprocos. Os sentimentos de pertença também. A nossa Europa nunca olhou para nós como parceiros genuínos de facto e de direito. E se alguma vez olhou para nós olhos nos olhos, esse olhar não tinha especial afeto. Verificava que éramos bonitos, com bom clima e peixe saboroso. O olhar concluía depois, mal empregados. Era mais o olhar apreciativo do juiz a procurar incumprimentos do que o do companheiro de viagem.
No mundo globalizado da atual crise sistémica o ser europeu não é hoje especialmente identitário. Com estas lideranças inferiores e ordinárias, o ser europeu é hoje uma coisa em forma de coisa nenhuma. A Europa quer-nos todos a viver na era da pós solidariedade. Nos arredores da dignidade. Nos banlieues da existência. Bem no centro da demência. Europa nua e crua. Europa drama.
Uma Europa familiar. Nunca fizemos parte de uma Europa doméstica, em que se amanhece em conjunto e se goza a placidez dos entardeceres. Mas fazemos de facto e de direito parte da Europa domesticada e crepuscular.
E no entanto, o que fazer sem este chão no meio deste desnorte, no meio desta complexidade em que a própria Europa tem a bússola avariada. O que nos pode acontecer se sairmos deste espaço económico, deste espaço monetário, privados de armas de combate no meio de uma brutal guerra financeira. A pergunta é obviamente retórica. Sabemos que se tal acontecer a nossa economia será para além da economia rasca do empobrecimento de Passos Coelho, a economia de um atroz sofrimento lusitano.
A menos que a outra Europa, a Europa derrotada pelo neoliberalismo, a Europa social, a Europa que optou e ousou a democracia, a Europa dos direitos conquistados à porrada, a menos que essa Europa acorde da letargia e diga um conclusivo e enraivecido basta. Genug. Assez. Enough.
Basta de celebração do caos. Celebre-se antes a Europa pós liberal.