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5 notas sobre as eleições na Madeira

Quem acredita numa política ambiental e climática responsável, quem leva a sério o bem-estar animal, quem levanta a bandeira arco-íris contra todas as discriminações, terá uma voz no parlamento regional que não abandonará nenhuma das causas, nenhuma das lutas. Será a voz do Bloco de Esquerda.

1. “Somos Madeira”, mas somos cada vez menos

A coligação PSD/CDS, “Somos Madeira”, não teve maioria absoluta. Alberto João Jardim comentaria na noite eleitoral que era um resultado dececionante para quem teve comunicação social e todos meios. Tem razão. Miguel Albuquerque desdobrou-se em inaugurações, ofereceu comes e bebes em toda a ilha, anunciou apoios novos a cada dia da campanha eleitoral. As notícias das últimas semanas eram compostas quase integralmente pelas novidades governativas, cuidadosamente guardadas para o mês de setembro: do subsídio Covid para profissionais de saúde, à integração de precários e aos salários dos bombeiros voluntários, passando por bolsas de estudo ou apoios à habitação. Na região do país com mais pessoas em situação de pobreza, uma campanha ao estilo grande prémio na montra final.

Quase cinco décadas de poder estão alicerçadas nesta teia de dependências e no mito de que tudo é oferta do PSD. Mas algo está a mudar e “mudança” é mesmo a palavra que mais se ouve pelas ruas. “É preciso uma mudança”, ainda que não se veja ainda de onde virá. Em 2019, o PSD teve de negociar com o CDS para se manter no poder e agora, mesmo coligados, não chegaram à maioria absoluta. Albuquerque passou a campanha a dizer que se demitiria se não tivesse maioria absoluta. Na noite eleitoral deu o dito por não dito e garantiu que arranjaria um acordo de maioria absoluta para governar. Depressa o conseguiu com o PAN.

2. O PS e a desilusão

O resultado do PS está longe de ser o pior de sempre. Mas é mau e expressa uma enorme quebra. Resta-lhe a consolação de se manter como segundo partido. Mas como passou de partido que pode ganhar eleições (em 2019 esteve quase lá) para o partido da desilusão?

Em 2013, formou-se a coligação “Mudança” para concorrer às eleições autárquicas. Coligação que integrava o PS, o Bloco e outros partidos e que nascia de uma estratégia muito maturada para romper com o poder absoluto do PSD na região. Foi um sucesso e o PSD perdeu para esta coligação a Câmara do Funchal, onde reside praticamente metade da população da Madeira. Em 2017, a coligação volta a vencer no Funchal, agora sob o nome “Confiança” e de novo encabeçada pelo (ainda) independente Paulo Cafôfo. Era possível vencer o PSD na Madeira e afirmar um projeto alternativo. Só era preciso tempo e consistência. Mas o PS não quis esperar.

Já em 2015, o PS decide concorrer às eleições regionais com uma coligação “Mudança”. O nome era o mesmo, mas o projeto não. O Bloco ficou de fora e teve um dos seus melhores resultados de sempre, elegendo dois deputados. O PS teve um dos seus piores resultados: a coligação que promoveu elegeu apenas 5 deputados socialistas e um do PTP. Em 2019, o PS decide arriscar mais. Paulo Cafôfo abandona a Câmara do Funchal para ser candidato a presidente do governo regional. As eleições são muito bipolarizadas e participadas. O PS atrai voto de toda a oposição (o Bloco não elege nesse ano) e consegue mesmo o seu melhor resultado de sempre. Mas não ganha e não tem nenhum projeto para o dia seguinte e deserta da oposição. No Funchal, o projeto tinha perdido o seu rosto e o PSD recupera a Câmara. Terminava em derrota um caminho que chegou a abalar o poder social-democrata.

A estratégia errada do PS não derrotou só o PS. Comprometeu também a alternativa que se estava a afirmar no Funchal e que dava esperança de uma mudança na Madeira. A desilusão com o PS é bem mais funda do que as desastradas opções de Sérgio Gonçalves, o atual secretário geral do PS Madeira. A maioria absoluta do PS na República, incapaz de dar resposta nacional a problemas que são também os da região (habitação, acesso à saúde, economia de baixos salários), não terá ajudado.

3. A direita não é, nem quer ser, oposição

O CDS chegou a ser o maior partido da oposição na Madeira. Em 2011 com mais de 17% dos votos e em 2015 com mais de 13%. Mas bastou o PSD, em 2019, precisar de ajuda para governar para que o CDS, então debilitado pela disputa eleitoral bipolarizada, esquecesse a “luta contra a asfixia democrática” e corresse para um governo em tudo igual ao que sempre contestou. Nestas eleições, concorrendo coligado, o CDS não existiu.

Chega e IL ficaram com o campo livre para reclamar votos da oposição de direita ao governo do Miguel Albuquerque. Foram acarinhados como a novidade das eleições em toda a comunicação social, mas ficaram longe dos resultados que o CDS chegou a atingir. O Chega fica abaixo dos 9% e a IL abaixo dos 3%. E se o seu discurso pouco se distingue do que o CDS em tempos afirmava na região, a consistência da sua oposição será também pouca.

No congresso de janeiro deste ano, Ventura afirmava que queria ser parte incontornável do governo de Miguel Albuquerque. A IL também nunca fechou portas e na noite eleitoral confirmou a sua disponibilidade para negociar com o PSD. Não há grande novidade em tudo isto. CDS, Chega ou IL nunca puseram em causa o poder económico na Madeira. São incapazes de uma proposta que o belisque. E se não querem mudar nada, tudo o que querem é um lugar à mesa do PSD. Nenhum mistério.

4. E há esquerda?

A afirmação da esquerda na Madeira não é fácil. O PS está absolutamente comprometido com os grupos económicos da região e com o off-shore. E os partidos à esquerda do PS, nestes quase 50 anos, nunca elegeram mais de 4 deputados. Nos anos 80, a UDP chegou a eleger três deputados em eleições em que o PCP não conseguiu representação. Em 2015, Bloco e PCP elegeram dois deputados cada. Em 2019, o PCP conseguiu manter Edgar Silva (o seu cabeça de lista desde 1996) e o Bloco não elegeu. Agora, PCP mantém e o Bloco regressa ao parlamento regional.

O terceiro partido na região é uma cisão regional do PS - o Juntos pelo Povo. É difícil ler o seu programa como um programa de esquerda. Sobra em ambiguidade o que falta em proposta concreta. Mas é o partido que governa a autarquia de Santa Cruz há já dez anos, com uma postura de clara oposição ao PSD. E se é certo que as divisões internas terão impedido um maior crescimento nestas eleições, o resultado é uma prova de vida convincente. Veremos o que será capaz de fazer agora.

A construção de uma alternativa como a que se iniciou no Funchal em 2013, e que foi destruída pelo PS, parece agora mais distante. Mas nem por isso a esquerda pode baixar os braços. O enorme desafio na Madeira é a criação de alguma forma de congresso das oposições, onde seja possível conjugar um programa de políticas, independente das dinâmicas eleitorais. Não será fácil. O PCP nunca aceitou fazer parte de qualquer entendimento. Já o Bloco, seguindo uma estratégia iniciada pela UDP, nunca desistiu desse objetivo. A sua reentrada no parlamento será determinante para o que vier a acontecer. Resta saber se há mais esquerda neste caminho.

[Um parêntesis que não é pormenor: Sabemos que em 2019 o Bloco Madeira foi vítima da bipolarização, mas também de uma situação interna complicada. Num momento em que o Bloco nacional tinha um dos seus melhores resultados, na Madeira não conseguimos manter representação. É por isso justo que se refira o papel importante da Dina Letra, atual coordenadora do Bloco Madeira, na reconstrução da organização e num momento nada fácil. A reentrada do Bloco no parlamento regional não teria sido possível sem esse trabalho e sem o regresso de Roberto Almada como cabeça de lista, reconhecido popularmente como voz da oposição de esquerda na região.]

5. PAN para toda a obra

Para muitas pessoas que confiaram o seu voto ao PAN, mais do que surpresa há desilusão com o acordo celebrado com o PSD. Mas os sinais estavam todos lá.

O PAN repetiu na campanha o seu velho refrão - nem de esquerda nem de direita, mas sim de causas. Não nos enganemos: quem assim se define acaba sempre à direita. E quem se interroga sobre o partido da causa animal aliar-se a defensores da caça ou da tauromaquia, tem certamente estado desatento. Nos Açores, o PAN viabiliza o governo da direita. Quando o Chega, numa das suas múltiplas divisões, deixou de bastar como suporte, o PAN juntou-se às sobras do Chega e à IL para assegurar maioria parlamentar à coligação governamental PSD/CDS/PPM.

As contradições são evidentes e dolorosas. Na causa animal e em todas as outras. Alguém acredita que uma deputada do PAN terá a força para mudar a política de ordenamento do território e para colocar na ordem os tubarões do imobiliário que destroem o ambiente e agravam os efeitos das alterações climáticas na região?

Quem acredita numa política ambiental e climática responsável, quem leva a sério o bem-estar animal, quem levanta a bandeira arco-íris contra todas as discriminações, terá uma voz no parlamento regional que não abandonará nenhuma das causas, nenhuma das lutas. Será a voz do Bloco de Esquerda.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Atriz.
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