Somos herdeiras do caráter político e contestatório da Revolta de Stonewall, momento que simbolizou a resposta coletiva à repressão e que trouxe as experiências e as vivências LGBTQI+ para o espaço público e para o campo político. Momento onde as nossas vivências individuais deram lugar ao reconhecimento de uma experiência coletiva de opressão, mas também de luta e de resistência.
Este caráter político e contestatório do Orgulho LGBTQI+ tem-se confrontado com a ascensão de partidos políticos, grupos extremistas e personalidades conservadoras que representam uma agenda de ataques aos direitos conquistados, assim como a uma crescente apropriação das nossas bandeiras de luta por parte do mercado, instituições e países que não nos representam.
Desta forma, trago 3 notas sobre o papel da Esquerda nos desafios do movimento LGBTQI+ e de como apenas uma luta anticapitalista lhes pode resistir:
1. O combate ao individualismo liberal:
É necessário fazermos frente à lógica liberal, identitária e mercantilista que se tenta apropriar dos nossos espaços, que tem como propósito isolar-nos, voltando ao momento em que as nossas experiências eram vividas sozinhas, pois onde não existe coletivo não existe resistência.
A narrativa liberal defende que a representação e visibilidade pública de pessoas assumidamente LGBTQI+ é suficiente para alcançarmos a nossa libertação, e que a luta aí se esgota. Mas não basta a existência de pessoas assumidamente LGBTQI+ em lugares mediáticos ou políticos; tem de existir uma real transformação das estruturas de poder.
Enquanto esquerda anticapitalista, temos que rejeitar a ideia de que basta assumir uma determinada identidade para que o cisheteropatriarcado seja enfraquecido, pois as estruturas que nos oprimem não deixam de existir por lhes tentarmos escapar individualmente. Esta ideia afirma-se no documento orientador do I Fórum LGBTQI+ do Bloco de Esquerda, onde recusamos esta narrativa individualista disfarçada de emancipação. Tem sido este o caminho do Bloco, e é este o caminho que temos que continuar a seguir.
2. Um Orgulho Crítico:
As Marchas do Orgulho marcam a agenda política com reivindicações fraturantes do movimento LGBTQI+. É pela sua importância que é preciso combater a cooptação mercantil que se tenta apropriar destes nossos espaços de luta, como aconteceu nas maiores marchas LGBTQI+ internacionais, onde vimos o seu conteúdo político a ser esvaziado por marcas e empresas e onde a população LGBTQI+ perdeu o seu protagonismo político.
Um exemplo bem próximo de nós é o Europride 2025, que se irá realizar em Lisboa. Este é um evento máximo da comercialização LGBTQI+, totalmente despolitizado, sendo a sua consequência o reforço da especulação imobiliária e a gentrificação, que é tudo o que a população de Lisboa menos precisa. Enquanto militantes do Bloco, enquanto anticapitalistas temos que nos antecipar, com marchas por todo o país que sejam críticas do capitalismo e do pinkwashing, transformando o nosso orgulho num orgulho crítico, interseccional e com consciência de classe.
3. A nossa luta é anti-imperialista:
Israel faz uso do pinkwashing como ferramenta de ocupação colonial dos territórios e povo da Palestina. O estado sionista faz passar uma imagem falsa de um estado progressista e tolerante ao mesmo tempo que continua a matar e a oprimir pessoas palestinas sejam elas LGBTQI+ ou não. Sem o direito à dignidade e vida de todos os povos, não existe libertação para ninguém, e enquanto movimento LGBTQI+ temos que lutar contra a narrativa de Israel e reivindicar uma Palestina livre do colonialismo, do patriarcado e do pinkwashing.
* O Grupo de Trabalho LGBTQI+ do Bloco de Esquerda tem feito um trabalho de reflexão desde o I Fórum LGBTQI+ através do documento orientador que saiu do mesmo, e, neste momento, encontra-se a trabalhar na construção do II Fórum. Este é um momento em que ativistas nacionais e internacionais se juntam a militantes do Bloco de Esquerda para pensar um movimento que é politizado e coletivo.
O Bloco de Esquerda é herdeiro do caráter político e contestatório do Orgulho LGBTQI+. As mudanças que reivindicamos e o trabalho coletivo e político que realizamos são estruturais, e tal implica uma visão crítica tanto ao capitalismo como ao cisheteropatriarcado que exploram a classe trabalhadora, as mulheres, as pessoas racializadas, migrantes e pessoas LGBTQI+ de formas desiguais.