25 de novembro

porNuno Pinheiro

29 de junho 2024 - 22:05
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Sim, a direita tem todas as razões para comemorar o 25 de novembro. Comemorem, é o vosso dia, só não digam, por favor, que é a continuação do 25 de abril, porque é a sua negação.

Finalmente a direita conseguiu o que queria, ou, pelo menos, quase tudo. Passará a haver comemorações oficiais do 25 de novembro. O quase que faltou foi um feriado. A proposta desse feriado veio do lado do Chega, o mesmo que diz que o 25 de abril destruiu Portugal. Isto mostra, ao contrário do que dizem alguns “moderados”, que esse dia de novembro não é uma continuação do 25 de abril, mas sim a sua negação.

Tentemos perceber esse dia. Martela-se a ideia de que o 25 de novembro de Eanes e Jaime Neves seria a resposta a um golpe de estado da esquerda totalitária. Aqui há versões diferentes, podia ser do PCP a mando de Moscovo, de toda a esquerda (excluindo o PS), ou do grupo ligado a Otelo.

Deformação profissional de historiador, preciso de ver os documentos. Relatos de reuniões preparatórias, uma cadeia de comando, o plano de operações. Nada disso aparece, o que faz pensar que esse golpe talvez não existisse. Também nunca se ouviu nenhum relato de participante sobre o referido golpe.

Passemos agora por Moscovo, sempre suspeita do golpe. Os arquivos soviéticos, que agora estão fechados, chegaram a estar abertos, mas nada apareceu desse lado. Não é em Moscovo que devemos procurar golpe, preparação, comando ou plano. Mais importante que isso, de Moscovo vem-nos a negação do golpe, ou, pelo menos do seu envolvimento. No final da 2ª guerra mundial, as potências vencedoras fizeram a divisão da Europa em zonas de influência. A Europa Ocidental ficou, claro ligada às potências ocidentais, o mesmo aconteceu, por exemplo, com a Grécia. Para a URSS ficou o espaço para lá da “cortina de ferro”, expressão que vem destes tempos. A expressão máxima desta divisão foi a própria Alemanha com cada parte ocupada por uma das potências vencedoras e Berlin dividido ao meio.

O Kremlin sempre respeitou esses acordos de 1945, mesmo quando isso implicou assobiar para o lado ante o massacre dos guerrilheiros gregos. O seu interesse era a estabilidade. Não havia razão para que em Portugal fosse diferente e não foi. Soares saberia que Moscovo não queria nenhum golpe, Kissinger ainda mais e, não é plausível que o famoso telefone vermelho entre a Casa Branca e o Kremlin não tenho funcionado. Sublinhe-se que nessa altura, em que se atenuavam as tensões entre o Kremlin e a Casa Branca, funcionava com alguma frequência.

O comportamento das altas patentes militares mais ligadas ao PCP, com Rosa Coutinho a desmobilizar os fuzileiros, mostra-o. Na discussão havida agora, sobre as comemorações do 25 de novembro, o deputado do PCP, António Filipe, sublinhou-o, ao dizer que o PCP antes, durante e depois (do 25 de novembro) tinha sempre procurado uma solução de estabilidade. De facto, o PCP, foi quase sempre uma força de manutenção do status e da estabilidade, procurando evitar greves, ou reivindicações “excessivas”. A direita considera o PCP sempre como um agente de Moscovo, não teria sido numa ocasião decisiva que iria desobedecer.

Note-se que hoje na Ucrânia ainda é, em parte, essa divisão que está em causa, embora falemos de território que pertencia à URSS.

Excluindo a hipótese de golpe do PCP ainda teríamos a extrema-esquerda e os Otelistas. Seria estranho um golpe partir de um sector tão heterogéneo e dividido. Acrescente-se que para as forças leninistas incluídas neste grupo um tal golpe era impensável, já que não estariam reunidas as “condições subjetivas”, ou seja um partido de vanguarda. Note-se que nada nas publicações destes sectores aponta para a preparação de um golpe. Seria normal para um golpe “clássico”, mas não para um em que se procura apoio popular. Não é, também, plausível um golpe deste sector.

Mas olhemos para os acontecimentos. Depois da revolta dos paraquedistas a “direita militar” teve sempre a iniciativa e os supostos golpistas deram mostras de desorientação e incapacidade de resposta. Unidades militares chave não tinham armas ou munições. Alguém acredita que no lado em que estava o responsável pela estratégia do 25 de abril, entre outros militares experientes, podia haver tal amadorismo?

Temos, por outro lado, relatos muito extensos da preparação do golpe do “outro lado”. Soares, Carlucci, Kissinger, Jaime Neves, Eanes, os Nove. O facto é que este/estes sector/sectores estavam bem organizados. Tinham apoios internos e externos. A visão mais imediata encontra aqui uma movimentação contra a “esquerda militar”, no contexto do confronto entre fações do MFA. Porém, de uma forma mais global não podemos deixar de ver uma forma de evitar que “o poder caísse na rua”, ou seja um golpe mais ditado por aquilo que se passava no país, com a construção de alternativas de “poder popular”, do que com as dissidências do MFA. Evitar que o poder caísse na rua, já tinha sido a preocupação de Marcelo Caetano e de Spínola, com tentativas para que isso não acontecesse.

Não há nenhum golpe da esquerda em 25 de novembro, o golpe veio da direita e dos sectores moderados. O 25 de novembro não é o fim da ameaça totalitária, mas sim do PREC que era a grande experiência de participação popular, o tomar a vida nas próprias mãos, o ganhar dignidade.  A sede de uma espera estancada na corrente. É o fim disso que a direita comemora, sabendo também que a ameaça totalitária foi mais forte que nunca durante esse golpe.

Apesar de tudo. o Portugal de novembro não conseguiu destruir as conquistas de Abril, pelo menos todas. Muito até se conseguiu depois (uma lista demasiado grande para aqui colocar), mas começa ali a tristeza, um povo que se alheia do seu destino e participa cada vez menos. Queixam-se de altos níveis de abstenção? Lembrem-se do que fizeram para impedir que as pessoas participassem ativamente. Queixam-se de haver pouca participação cívica e política, lembrem-se de quando fizeram tudo para impedir essa participação. Lembrá-lo, sobretudo, aos que fizeram novembro sendo democratas.

Foi num dia de novembro, mas se não fosse novembro, era setembro 28, ou março 11, em que a direita ensaiou os seus golpes.

Sim, a direita tem todas as razões para comemorar o 25 de novembro, um feriado até calhava para fazer uma trilogia com o 1 de dezembro (e lembram-se das manifestações de extrema-direita nessa data) e o 8 de dezembro. Comemorem, é o vosso dia, só não digam, por favor, que é a continuação do 25 de abril, porque é a sua negação.

Nuno Pinheiro
Sobre o/a autor(a)

Nuno Pinheiro

Investigador de CIES/IUL
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