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25 de Abril

Não é uma data. Somos nós. Mesmo os que vieram depois.

Valeu mais que toda a pimenta das Índias e todo o ouro dos Brasis.

Um só dia valeu o ano. Muitos anos. Um só dia marcou a fronteira entre o indizível e o que se passou a dizer com as letras todas. Foi a caça passar a caçadora. Foi a fusão, no forno das ruas acesas, do aço espingardeiro com o vermelho do cravo popular pendurado no coração.

Foi a rua a vingar-se de contenções, humilhações, bastonadas e prisões. A rua solta. A rua liberta de dias intermináveis. A rua a vingar-se dos dias cretinos, vazios, cheios de malfeitorias, pequenos de vida. Dias apinhados de vidas pequenas, apoucadas.

A rua acasalou com o povo, entregou-se, ofereceu-se em carícias prolongadas, em êxtases repetidos. Cada pedra, cada calçada, era a tecla de um piano, um doce piano alegre, a exibir-se em antiquíssimas acústicas de futuro.

 

Foi o acabar trémulo do regime. Um regime medroso, mais cobarde que medroso, a tresandar a pânico, a não ousar sequer esganiçar uma desculpa, tão grande era a culpa e o crime produzido.

O regime. Uma oficina de patifarias. Uma fábrica de canalhices.

 

Foi o brevíssimo caminho entre a agonia do dia anterior e o júbilo do dia seguinte. Foi a história a aparecer, sorridente e leal, atrevida e ousada e a deixar-se embalar nos nossos braços, em abraços, no reencontro do tempo que andava escondido.

Foi a constatação feita verdade que nada na vida dura sempre, e que o que sempre parece ser, pode não ser.

Foi a mão a arredondar-se em punho e o punho a ganhar força. Foi dança de olhos a chorarem alegres, foi lembrança dos que já tinham ido e não viram o fim, foi o lampejo do que por aí estava a vir. Foi tudo isto e foi também o que não conseguiu ser. Foi o que fizemos e, sobretudo, o que sonhámos fazer. Ultrapassou a realidade e chegou vencedor e vencido ao patamar do símbolo.

 

Valeu mais, muito mais, que toda a pimenta das Índias e todo o ouro dos Brasis.

Foi o humilhado a revelar-se insolente e altivo e o obediente a fazer um manguito à ordem recebida.

 

O 25 de Abril de data passou a substantivo. Foi coisa concreta que se tocou com as mãos, com os polegares que são dedos inteligentes. O 25 de Abril conseguiu ser. E depois foi sendo, foi-se indo como areia entre os dedos, entre os dedos menos inteligentes.

 

O 25 de Abril valeu mais que as caravelas descobridoras. Foi nele que nos redescobrimos, tão perdidos que estávamos.

Foi quando a boca reencontrou o riso, e a língua se desapertou e correu em direção ao engenho e fabricação da poesia.

 

Nós não perdemos o 25 de Abril. Anda por aí. Às vezes esconde-se quando a polícia avança; outras vezes sai à rua e alegra-se com as multidões; pendura-se nos jeans coçados de um precário, faz companhia às tardes desalentadas dos desempregados, anima as mulheres, produz História e entoa canções a afinar o futuro. Aguarda a sua hora. Anda por aí.

Sabe, entende, intui, percebe, que foi mais, muito mais, que a pimenta das Índias e ouro dos Brasis. Anda por aí. Dá substância à memória, convoca a história e espera a chamada. Não é uma data. Somos nós. Mesmo os que vieram depois. Somos nós.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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