25 de Abril, agora e sempre!

porJosé Maria Cardoso

25 de abril 2014 - 18:34
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Viver Abril é equacionar o que temos e o que queremos. É avaliar o que fizemos e o que podíamos ter feito. É encontrar caminhos do presente para o futuro que façam com que a política chegue à ação, a ação chegue às pessoas, as pessoas cheguem à consciência do direito e da dignidade de ser pessoa.

25 de Abril. É sexta-feira, fim-de-semana prolongado. Temos que aproveitar enquanto é feriado, qualquer dia também nos tiram este. Se estiver bom tempo vou até à praia. Então não comemoras a revolução? Para quê, não serve para nada. Ah! eu festejo todos os anos, até me parecia estranho se não fosse assim, era como se não estivesse com a família no natal.

É assim que o 25 de Abril tem entrado no calendário anual das festividades. Uns não ligam e gozam o feriado, outros marcham de cravo vermelho na lapela entoando épicas músicas e assistem aos discursos de circunstância, cumprindo o ritual solene da efeméride.

E no dia seguinte tudo volta ao mesmo. Uns falam sobre a passeata no areal e o farnel no pinhal, outros dizem que foi bonita a manifestação. E assim se passou o feriado. P`ró ano há mais.

É esta contrastante forma de sentir o dia da revolução, para uns indiferente para outros nostálgica, que precisa de ser revolucionada.

Se é verdade que é imprescindível lutar contra o esquecimento, não é menos relevante avivar a memória ativa dos valores e causas que geraram o dia zero da democracia em Portugal.

Viver Abril é acreditar que os princípios que desencadearam as mudanças sociais e políticas continuam presentes e mais do que nunca prementes, sendo obrigatório exigir a sua aplicação.

O xadrez político do poder no nosso país, manietado pela ingerência troikana, é demasiado perigoso para as portas que Abril abriu. Está em marcha um novo paradigma económico e social, estimulado pela insana avidez do lucro, perpetrado por um capitalismo especulativo que instaura a lei selvática do liberalismo financeiro, onde tudo conta exceto as pessoas.

Abril é democracia – como é que isto se compagina com a permanente liquidação dos serviços públicos num desenfreado jorro de privatizações?

Abril é liberdade – como é que isto se enlaça perante a instauração de um clima de medo e de cultivo da inevitabilidade, do género “nós ou o caos”?

Abril é desenvolvimento – como é que isto se coaduna com a perda sistemática do salário e o corte profundo de direitos?

Abril é esperança – como é que isto se faz acreditar quando se legitima o aumento galopante do desemprego, da pobreza, da miséria, como uma espécie de fatal fatura do progresso e vergonhosamente se afirma que “o país está melhor, as pessoas é que não”?

Abril é inclusão, é igualdade – como é que isto se combina quando se descartam os mais velhos, se expulsam os jovens, se retira futuro aos que trabalham e cinicamente se adotam políticas caritativas e misericordiosas, como que, à boa maneira salazarista, “coitadinhos dos pobrezinhos”?

Quando o presidente comunitário e putativo candidato presidencial diz que o nosso país tinha ensino de excelência antes do 25 de Abril, quer branquear o passado ou insultar os portugueses. Quando a 2º figura de Estado, na destreza que lhe é peculiar de “peixeirada”, responde aos Capitães de Abril dizendo que “o problema é deles”, quer entreter com protagonismo estéril ou quer instigar polémica politica? Presumivelmente até considero que a culpa é nossa – entenda-se quem construi, quem sentiu e sente, quem faz vida do que foi e é Abril -, porque permitimos que esta geração dos filhos dos vencidos no 25 de Abril tomasse conta do poder. Estes políticos de estufa, sem experiencia, sem princípios e sem independência, fazem percurso no carreirismo acéfalo de subserviência às diretrizes e têm como missão fazer um ajuste de contas com os valores de Abril.

Hoje vivemos dias sombrios, de receios, de crise de vontades e expetativa, sem futuro nem presente. Recordamos o passado recente e dizemos que a revolução está morta - em 75 é que foi. Adotamos argumentos perigosos que servem ideias e interesses ocultos – são todos iguais, querem é tacho. Declinamos a esperança pela resignação da insegurança – mais vale pouco do que nenhum.

Temos de saber combater a nostalgia lembrando que o tempo é agora como é sempre. Temos de saber combater o populismo e mostrar que o que é preciso é democratizar a democracia. Temos de saber combater a descrença e o desencanto afirmando a alternativa credível e de confiança.

Viver Abril é equacionar o que temos e o que queremos. É avaliar o que fizemos e o que podíamos ter feito. É encontrar caminhos do presente para o futuro que façam com que a política chegue à ação, a ação chegue às pessoas, as pessoas cheguem à consciência do direito e da dignidade de ser pessoa. O povo de esquerda tem a crucial obrigação de mostrar que não foi para ser o que é, que se fez aquele “dia inicial, inteiro e limpo”.

Saudações democráticas ao 25 de Abril, Agora e Sempre.

José Maria Cardoso
Sobre o/a autor(a)

José Maria Cardoso

Professor. Dirigente do Bloco de Esquerda
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