Em primeiro lugar Cipriano Justo inquieta-se por não saber se "os eleitores que votaram nos partidos de esquerda estão a sentir-se confortáveis com as primeiras semanas de desempenho dos seus representantes". Compreende-se a inquietação, mas bastará um olhar menos distraído para verificar os conteúdos desse desempenho. No que ao Bloco diz respeito o prometido foi devido, basta consultar o site www.parlamento.pt.
Em segundo lugar cabe perguntar a Cipriano Justo onde está a representação política do centro-esquerda? Presumindo que a sua resposta seja no PS, emerge a necessidade de solicitar as premissas que possam apurar que a palavra esquerda não se encontra usurpada do seu valor de uso. Mas essa é a permanente fuga de Cipriano Justo.
Quanto a exemplos da actual governação estamos conversados. Aliás segue a linha da Internacional Socialista que baqueou perante o neoliberalismo mais atroz, corrupto e produtor de guerra. O neoliberalismo impôs tal pressão que tornou a "social-democracia" e o "socialismo-democrático" meras sombras virtuais dos seus congéneres do período pós 2ª guerra mundial.
Em terceiro lugar Cipriano Justo elenca 4 necessidades de entendimentos futuros entre o tal centro-esquerda e a esquerda. Vejamos:
1. Superação da situação económica. Dificilmente haverá outros campos onde a diferenciação seja maior. O PS nega o alargamento sério do subsídio de desemprego, protege as negociatas dos banqueiros, recusa um combate eficaz à corrupção, recusa o acesso à reforma dos trabalhadores com mais de 40 anos de descontos e o imposto sobre as grandes fortunas para financiar a segurança social, mas é submisso ao Pacto de Estabilidade cujos critérios nos impõem mais pobreza e desemprego.
2. Eleições presidenciais. A candidatura presidencial é um acto individual; deixemos que cada um decida por si e tenha tempo para a sua definição política.
3. Regionalização. Pergunte-se ao PS se quer dotar as regiões de órgãos eleitos pelas populações, evitando a multiplicação de burocracias e concentrando a resposta nas responsabilidades concretas da coordenação regional como os sistemas de transportes, habitação e outras políticas sociais?
4. Revisão da Constituição. Pergunte-se ao PS se quer inscrever na Constituição o controlo público da água e da energia, tal como acontece já com o sector ferroviário, se quer garantir mais democracia alargando o direito de voto aos imigrantes e aos jovens com 16 anos? E porque não questionar o PS porque não levou a efeito o referendo ao Tratado Europeu pelo qual se tinha comprometido em revisão constitucional - extraordinária - anterior?
O afã da "quadratura do circulo" não pode esquecer a vida das pessoas e uma resposta a uma pergunta muito simples mas determinante: qual a posição face à política da guerra e à NATO? É que sem uma oposição à política da guerra não há esquerda que resista.
Foi o que aconteceu à Refundação Comunista (RC) de Itália ao aceitar participar no governo Prodi, ao esquecer que os serviços públicos, a defesa dos trabalhadores e da paz estão no centro da vida humana, ao esquecer que a esquerda socialista só tem razão de existência se for alternativa anti-capitalista - como escreveu Bertinotti nas suas famosas "Quinze Teses" -, cavou a sua própria sepultura. A RC caiu a pique e viu a sua representação parlamentar reduzida a zero.
É isto que nos propõe Cipriano Justo, e outros articulistas? Suicídio político, não obrigado!