Serão várias pessoas, de várias profissões, de várias idades e de várias regiões a paralisar o país com a revolta, a raiva, a indignação e a inconformidade que nos consome a todos por dentro. E vale a pena, para que os cortes nas prestações sociais, os cortes nos ordenados, a sub-orçamentação da saúde, da educação, da segurança social, o aumento da despesa com os medicamentos e com o material escolar, o fim do abono e o aumento dos impostos sobre os mais pobres e a classe média não sejam necessários para manterem os lucros milionários dos bancos e dos especuladores, eles mesmos os causadores da crise. Não podendo deixar ninguém de fora, aqui vão 10 razões honestas para que outros médicos como eu façam greve e saiam à rua nesse dia:
1. Os cortes nos ordenados da função pública afectam também os médicos que trabalham para o SNS. Estes podem atingir os 10% do ordenado, o que acumulado ao corte nas horas extras e ao aumento dos impostos poderá vir a significar uma queda muito significativa ao final do mês;
2. A sub-orçamentação prevista para a saúde no próximo ano vai piorar significativamente as condições de trabalho para os profissionais do SNS;
3. O fim da exclusividade é inadmissível. Sabemos bem que exclusividade no SNS significa dedicação e, muitas vezes, trabalho a mais, horas a mais que não são reconhecidas. Essa dedicação tem que ser premiada.
4. A entrega das gestões hospitalares a privados prejudica os profissionais. Tal como está a acontecer em Braga e em Cascais, os profissionais são discriminados no trabalho, quer por auferirem diferentes salários para as mesmas funções, quer pelas horas a mais que não têm sido pagas, quer pela distância a que estas gestões se colocam dos verdadeiros interesses clínicos;
5. A disparidade de pagamentos feitos a médicos em urgência entre aqueles que são contratados por empresas privadas e os que fazem parte do quadro – a esta diferença não corresponde uma diferença na carga de trabalho, o que a torna injusta;
6. Os médicos do SNS, ao contrário do que é o senso-comum, são dos profissionais mais mal pagos em relação à formação que possuem. A carreira médica é em média a mais longa de todas as carreiras (no mínimo entre 10 a 12 anos) e a progressão em termos de salários não acompanha essa longevidade;
7. Os médicos do SNS são os profissionais da função pública que mais horas extra fazem, o que equivale a dizer que são os profissionais que, em média, mais tempo dedicam ao trabalho.
8. O orçamento do próximo ano aprofunda a destruição do SNS enquanto serviço público. O fim do SNS significa a desigualdade na saúde entre todos os cidadãos, havendo saúde de qualidade para ricos e saúde precária para os mais pobres… Nenhum médico aceita esta diferenciação;
9. Os especialistas mais novos estão com contratos individuais de trabalho, o que em alguns casos leva ao ridículo de terem salários inferiores ao que auferiam enquanto internos – isto é o que a empresarialização dos hospitais trouxe e pretende manter.
10. O aumento do preço dos medicamentos e a diminuição das comparticipações vai aumentar drasticamente o incumprimento terapêutico.
Façam greve, saiam à rua no dia 24.
Marquem a diferença, desta vez!