“Why austerity kills”

porBruno Maia

15 de outubro 2013 - 12:45
PARTILHAR

Não são as crises económicas que comprometem a saúde das populações. São as respostas que lhes são dirigidas. Os países que escolheram a austeridade como resposta são os países que sofrem as consequências negativas mais profundas da crise.

João Goulão, diretor do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências,afirmava este fim-de-semana que aumentounos últimos dois anos o número de toxicodependentes no país, com um regresso do consumo à heroína. Estes números invertem uma tendência de decréscimo que se tinha vindo a registar nos últimos 10 anos. A relação entre crise económica e social tem sido debatida e investigada nas mais variadas instâncias. Muitas perguntas têm sido colocadas. Há uma relação entre a saúde das populações e a sua economia? As crises económicas aumentam o número de suicídios, o número de toxicodependentes e a incidência do VIH/SIDA? É esta relação linear e evidente?

Embora a resposta pareça simples, ela de facto não o é. David Stuckler e Sanjay Basu são dois epidemiologistas que publicaram este ano um livro intitulado “The Body Economic”. Um de Harvard e outro de Oxford, dedicaram-se nos últimos anos a olhar para gráficos, bases de dados e registos públicos de indicadores de saúde em populações de todo o mundo que atravessaram importantes crises económicas. Olhamos para a Grécia e parece-nos óbvio que o aumento da incidência de VIH/SIDA, dos suicídios e da toxicodependência estão relacionados com a profunda crise social em que vive. Outros países como a Tailândia ou a Indonésia, durante a crise asiática dos anos 90 também viram os seus indicadores de saúde caírem drasticamente com o aprofundar da recessão económica que viveram. Os próprios Estados Unidos nos 2/3 anos que se seguiram ao crash de Wall Street de 1929 viram a sua taxa de suicídios disparar. Todos estes são exemplos simples que nos poderão levar a estabelecer a proporcionalidade direta entre crise económica e agravamento da saúde das populações.

Mas o que aconteceu na Islândia em 2008? Sendo um dos países com um dos melhores registos de indicadores de saúde no mundo, olhando para os primeiros anos da presente crise económica, o número de suicídios não cresceu, pelo contrário até sofreu uma ligeira quebra. Também a incidência de ataques cardíacos, o consumo de substâncias aditivas ou a taxa de depressão caíram ligeiramente. E nos EUA, o país onde começou a crise do suprime, os números dos suicídios subiram ligeiramente em 2008 mas voltaram a cair em 2009 e têm-se mantido em queda desde então.

O que têm de diferente estes grupos de países? Segundo Stuckler e Basu não são as crises económicas que comprometem a saúde das populações. São as respostas que lhes são dirigidas. Os países que escolheram a austeridade como resposta são os países que sofrem as consequências negativas mais profundas da crise. São os cortes nas despesas públicas, a desestruturação dos serviços de saúde, a diminuição dos apoios sociais e sobretudo o desemprego que se manifestam direta e rapidamente nos indicadores de saúde. Os países como a Islândia que, pelo contrário, decidiram em tempo de crise investir adicionalmente nos apoios sociais e nos serviços públicos são aqueles que conseguem manter níveis de saúde aceitáveis.

A conclusão dos autores não é surpreendente, apenas o método rigoroso que utilizaram. No entanto é a contextualização da história que torna a premissa interessante. Ao longo da história os países que mergulharam na austeridade foram sempre os que demoraram mais tempo a recuperar dela, com prejuízo para a saúde dos povos. A piora das condições sociais leva à conhecida espiral recessiva que agrava ainda mais a dívida e a situação económica. Os que optaram por caminhos alternativos investindo em programas sociais que ajudem os novos desempregados, pelo contrário, recuperaram mais rapidamente a sua economia e protegeram as suas populações da doença e do abandono.

A Islândia está hoje a ver o seu nível de desemprego a cair. O caso mais paradigmático da história é o da Grande Depressão nos Estados Unidos. Perante o desemprego massivo e a pobreza generalizada, o plano Marshal de Roosevelt veio estabilizar nos primeiros anos da década de 30 a taxa de suicídios que parecia querer rebentar com a escala. Foram os gastos públicos em programas de saúde comunitária que preveniram a catástrofe. E ao mesmo tempo foram eles que impediram a espiral recessiva e permitiram uma recuperação mais rápida da economia.

Segundo Stuckler e Basu a austeridade traz o pior de dois mundos: mais dívida, pior economia e mais doença, pior saúde pública. E por isso escolheram para subtítulo do seu livro “Why austerity kills”.

Bruno Maia
Sobre o/a autor(a)

Bruno Maia

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida
Termos relacionados: