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Que representa o Brasil? As avançadas tecnologias ou a miséria analfabeta de grande parte das escolas públicas? A medicina de ponta disponível em hospitais caríssimos, ou a decadência dos hospitais públicos sem estrutura? Por Sérgio Denicolli

29 de junho 2013 - 17:53
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Protestaram juntos ricos e pobres, patrões e empregados, jovens e velhos, pacíficos e vândalos. Foto de Mattar/SelvaSP

O que é o Brasil? São as praias cariocas com os corpos dourados que ilustram os guias turísticos, ou as favelas que aparecem nos documentários sobre o Terceiro Mundo? É o frio do sul ou o calor do norte e nordeste? São os blocos populares ou o carnaval dos abadás? É a floresta Amazônica? O Pantanal? O sertão?

E e que representa o Brasil? As avançadas tecnologias ou a miséria analfabeta de grande parte das escolas públicas? A medicina de ponta disponível em hospitais caríssimos, ou a decadência dos hospitais públicos sem estrutura? Seria o futebol da geral ou o Maracanã da Fifa?

Provavelmente cada um de nós tem uma opinião a respeito das questões mencionadas. E, mais do que isso, cada um de nós tem um olhar sobre o que é ser brasileiro, a partir das próprias experiências.

Na verdade, o Brasil é um país de divisões de raças, religiões, castas, classes, e ao mesmo tempo é a união disso tudo. Só que a união plena sempre foi impedida pela divisão, que, voluntariamente ou não, acabava por ser alimentada pelos muitos meios de comunicação de massa, com sua visão de classe média acomodada. A falta de comunicação não mediada entre as mais diversas esferas do país era o alimento que mantinha tudo como estava. Ou seja, os ricos aprisionados em seus castelos com câmaras de vigilância, e os pobres aprisionados em sua própria sorte. Eram mundos que coexistiam, mas não se tocavam, a não ser em casos de violência, numa relação hierárquica de trabalho, ou então no período eleitoral.

No meio desse carnaval eterno, escondia-se a corrupção, o descaso, a impunidade, a dor e a delícia de ter um país inteiro mergulhado no caos, onde as leis só funcionam quando é conveniente. Fatores que causam indignação.

No exterior, os analistas têm muita dificuldade em perceber e transmitir o que acontece no Brasil. Muitos acham que a principal causa dos protestos foi o aumento das passagens de ónibus em São Paulo. Eles não entendem que no Brasil não há um transporte de qualidade, que as péssimas estradas são um convite aos acidentes, que as ferrovias praticamente não existem, e o que o aumento de 20 centavos em algo que não funciona era um desaforo

É difícil entender como um país que está entre as dez maiores economias do mundo tem que conviver com tanta miséria e falta de estrutura. E os brasileiros começaram a perceber que o sistema está errado. Afinal, para onde vai toda a riqueza que o Brasil possui? As pessoas estão fartas de serem enganadas, de não serem representadas pelos políticos que elegem, de não terem seus direitos garantidos pela justiça.

Quantos são os políticos e os magistrados que utilizam o sistema público de saúde, ou que têm os filhos matriculados em escolas do Estado? Como essas pessoas podem decidir o que é bom para a população, se elas vivem num Brasil de sonho, cujo acesso é para poucos?

Vejo muita gente se queixar dos atos violentos nos protestos. É realmente algo condenável. Mas temos que analisar as coisas de forma mais aprofundada. É possível exigir civilidade de quem só vê do Estado a face violenta? Como podemos pedir educação a quem nunca teve uma escola decente?

Se quem mora em locais aprazíveis e civilizados tem motivos para protestar, imagine os que vivem nas periferias esquecidas, sem rede de esgoto, calçamento, sem segurança. Há lugares onde a Lei é estabelecida pelos bandidos, porque são locais invisíveis aos olhos dos que têm o poder para decidir o futuro da nação. É assim que queremos continuar a ser? Certamente não, pois ninguém pode estar satisfeito em viver em uma nação eternamente em guerra.

Finalmente a insatisfação que ocorre de ponta a ponta se tornou plural e promoveu um encontro entre muitas facções distintas, que foram programadas para não se enxergarem de igual para igual, e muito menos para lutar lado a lado. O encontro aconteceu, inicialmente em meios online, e depois passou a ocorrer em plena via pública. Passaram a protestar juntos ricos e pobres, patrões e empregados, jovens e velhos, pacíficos e vândalos. Marcharam, simplesmente, sobre a cidade, como explosões individualmente coletivas, que reavivaram um sentimento de nacionalismo, de desejo por um país melhor. Essas forças voltam-se, inevitavelmente, contra os poderes corrompidos, as instituições de fachada, e a distância entre a realidade e o Brasil das fotos turísticas.

E, após dias muito estranhos, os de direita, esquerda, centro, os apolíticos, os com filiação partidária, os cristãos e os ateus, os alienados e os engajados, os incluídos e os excluídos sentem que aquela confusão magnífica, sem pé e nem cabeça, sem pauta reivindicatória comum, é um resumo do próprio país e um ensaio que pode levar à construção de um futuro realmente mais democrático.

Portanto, a grande mudança está no facto de que as pessoas entenderam que têm o direito de se indignar e de manifestar e reivindicar juntas. E essa grande diferença é o que faz aflorar uma esperança, por mais embaçada que ela ainda esteja, por mais negligenciada que pareça. Uma esperança, apenas isso. Ao menos por enquanto.

Sérgio Denicoli é professor e investigador da Universidade do Minho. Artigo publicado originalmente em A Gazeta, jornal do Espírito Santo, Brasil.

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