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A Ordem dos Cavaleiros do Carbono

É um facto que os e-mails que foram pirateados não ajudam em nada a causa. Mas sem este que aqui vos deixo será difícil demonstrar que o aquecimento global causado pelo Homem não passa de uma grande burla.

Não vale a pena fingir que não se trata de um rude golpe. Os e-mails roubados à unidade de investigação sobre alterações climáticas na Universidade de East Anglia por um pirata informático dificilmente poderiam causar mais dano(1). Estou agora convencido de que são genuínos, e deixaram-me profundamente consternado e abalado.

Sim, as mensagens foram obtidas de forma ilegal; sim, todos nós dizemos coisas em e-mails que seriam altamente comprometedoras se tornadas públicas; sim, alguns dos comentários foram tirados do contexto. Mas há algumas mensagens que não precisam de grande manipulação para fazerem mossa. Até porque parece agora demonstrado que houve tentativas de impedir a divulgação de informação científica(2,3), e até de destruir material cuja divulgação fora oficialmente requerida de acordo com a Lei da Liberdade de Informação(4).

Pior ainda, alguns dos e-mails indiciam esforços para evitar a publicação de trabalhos de "cépticos climáticos"(5,6), ou para os deixar de fora de um relatório do Painel Internacional sobre Alterações Climáticas(7). Acredito que não resta agora ao chefe da unidade, Phil Jones, outra opção que não a demissão. E alguma da informação discutida nos e-mails deve ser reanalisada.

Mas será que o que veio a público justifica os alegações dos cépticos de que esta é "a machadada final" na teoria do aquecimento global?(8,9) De todo. Foi posta em causa a credibilidade de três ou quatro cientistas e levantam-se questões em torno da integridade de umas tantas evidências científicas. Mas para enterrar de vez a questão das alterações climáticas causadas pelo Homem seria necessário desmascarar uma conspiração de muito maiores dimensões. Felizmente para os cépticos, e para meu grande desapontamento, já recebi o e-mail incriminatório que confirma que toda a ciência do aquecimento global é de facto uma burla. Se eu soubesse que afinal era tão fácil manipular os factos, não teria passado tantos anos da minha vida a promover uma disciplina fictícia. Em nome da liberdade de informação, sinto-me na obrigação de o reproduzir aqui.

"De: ernst.kattweizel@redcar.ac.uk

Para: Cavaleiros da Ordem do Carbono

Meus caros, o culminar do nosso grandioso plano aproxima-se a passos largos. Aquilo a que o Mestre chamou "a regulação de todos os assuntos humanos por um Estado mundial transcendente, empossado por Deus e sem ter de prestar contas a ninguém", e que agora conhecemos por Governo Mundial Comunista, atingirá o clímax em Copenhaga. Há 185 anos, desde que o Mestre (conhecido entre os leigos por Joseph Fourier) lançou o seu esquema para controlar o mundo, que toda a comunidade da física trabalha para este momento.

As fases iniciais do plano não podiam ter corrido melhor. Primeiro, a tese inicial do Mestre - de que os raios infravermelhos são absorvidos pela atmosfera - teve de ser aceite pelas instituições científicas. Não vos vou maçar com pormenores relativos ao ouro que teve de ser pago, às ameaças ou ao sangue derramado para atingir este fim. Mas o resultado foi a eliminação dos opositores e a desonra ou prisão dos rivais do Mestre. Passados 35 anos, o 3.º guardião do Grande Templo da Ordem dos Cavaleiros do Carbono (o nosso reverendo profeta John Tyndall) pôde "demonstrar" a tese do Mestre. O nosso controlo sobre a física era por essa altura tamanho que não foram levantadas grandes objecções.

Encontrámos (e rapidamente despachámos) mais resistência quando tentámos empossar o 6.º guardião (Svante Arrhenius) como professor de física, e depois como reitor, na Universidade de Estocolmo. A partir desta posição ele conseguiu divulgar a segunda grande lei do Mestre - a de que a radiação infravermelha retida na atmosfera de um planeta aumenta consoante a quantidade de dióxido de carbono. A partir daí, ele e os seus seguidores (liderados pelo guardião júnior Max Planck) foram capazes de adaptar radicalmente os cânone da física e da química para confirmar esta segunda lei.

Começou então a mais complicada das tarefas: controlar os registos instrumentais. Assegurar a colaboração das instituições científicas foi coisa simples. Mas os termómetros tinham-se tornado bastante comuns, e os metrologistas amadores começaram a fazer as suas próprias leituras. Tínhamos de demonstrar que havia um aumento contínuo paralelo ao desenvolvimento da industrialização, mas alguns destes desgraçados não estavam para aí virados. A inclusão, à escala global, da polícia e dos tribunais no plano implicou recursos desmesurados, mas até agora temos sido bem discretos e ninguém deu por nada.

O excesso de entusiasmo de alguns cavaleiros da Ordem em 1998 foi deveras lamentável. As altas temperaturas desse ano foram particularmente difíceis de explicar. Aqueles entre os nossos inimigos que ainda têm de ser silenciados defendem que as temperaturas mais baixas que se registaram após essa data são prova de um arrefecimento global, embora tenhamos entretanto conseguido demonstrar que oito dos dez anos mais quentes desde 1850 aconteceram desde 2001(10). A partir de agora vamos engendrar uma progressão mais suave.

A nossa integração do mundo físico no plano revelou-se igualmente bem-sucedida. A redução da camada de gelo do Ártico foi uma jogada de génio. O anel de centrais nucleares secretas à volta do Circo Polar Ártico, ligadas a termóstatos gigantes, nunca foi descoberto, tal como os nossos laseres espaciais, que derretem os glaciares do planeta.

Alterar os padrões migratórios e reprodutivos da vida selvagem revelou-se um desafio mais difícil. Embora já tenhamos por esta altura assegurado o controlo sobre os biólogos de todo o mundo, não podemos dar conta das observações sem autorização de agricultores, jardineiros, observadores de pássaros e outros arruaceiros. Fomos por isso obrigados a expulsar as aves migratórias, peixes e insectos para altitudes mais altas, e a libertar vários milhões de toneladas de feromonas vegetais todos os anos para acelerar o desenvolvimento de plantas e frutos. Nada disto é barato, e depende cada vez mais do desvio secreto, por parte dos governos cúmplices, de elevadas verbas do erário público.

A cooperação destes governos exige um esforço constante. A adesão de George W. Bush, que se converteu tardiamente à causa do Governo Comunista Mundial, só foi possível mediante a ameaça de publicação das filmagens feitas por um cavaleiro da Ordem em Yale, onde o futuro presidente aparecia em plena relação coital com um Ford Mustang. A maior parte dos governos ostensivamente capitalistas continua a saber o que é melhor para eles, embora eu registe com certo desgosto que até agora não conseguimos eliminar o Vaclav Klaus. Através dos serviços dos Estados colaboracionistas, a terceira grande lei do Mestre foi aceite: a alegada necessidade de controlar as emissões de gases de estufa vai ser usada como desculpa para mandar no mundo inteiro.

Manter a comunidade científica na linha continua a ser um desafio. As academias nacionais estão cada vez mais beligerantes e exigentes, e todos os anos pedem subornos mais altos. Os acontecimentos inexplicáveis do mês passado - todas as janelas das principais instituições científicas foram quebradas e apareceu uma cabeça de cavalo na cama de James Hansen - aparentemente acalmaram a crise por enquanto, mas por quanto mais tempo vamos ser capazes de manter o consenso?

Cavaleiros da Ordem do Carbono, agora que a hora do triunfo está próxima e nas nossas mãos, peço-vos que de dediquem à causa de corpo e alma. Em nome do Mestre, vão em frente e sejam implacáveis.

Professor Ernst Kattweizel, Universidade de Redcar, 21.º guardião supremo do Templo da Ordem dos Cavaleiros do Carbono."

Só se conseguirem desmascarar uma conspiração deste calibre é que os negacionistas vão provar que as alterações climáticas causadas pelo Homem são uma aldrabice. Os e-mails pirateados são um golpe duro, mas a ciência do aquecimento global está muito acima disso tudo.
 
Notas:

1. http://www.anelegantchaos.org/

2. http://www.anelegantchaos.org/cru/emails.php?eid=914&filename=1219239172...

3. http://www.anelegantchaos.org/cru/emails.php?eid=490&filename=1107454306...

4. http://www.anelegantchaos.org/cru/emails.php?eid=891&filename=1212063122...

5. http://www.anelegantchaos.org/cru/emails.php?eid=307&filename=1051190249...

6. http://www.anelegantchaos.org/cru/emails.php?eid=484&filename=1106322460...

7. http://www.anelegantchaos.org/cru/emails.php?eid=419&filename=1089318616...

8. eg http://blogs.telegraph.co.uk/news/jamesdelingpole/100017393/climategate-...

9. http://www.wnd.com/index.php?fa=PAGE.view&pageId=116882

10. http://www.metoffice.gov.uk/corporate/pressoffice/2008/pr20081216.html

Publicado no The Guardian a 23 de Novembro de 2009

Traduzido por Mariana Avelãs

George Monbiot é colunista do Guardian e autor dos best-sellers Heat: how to stop the planet burning; The Age of Consent: a manifesto for a new world order and Captive State: the corporate takeover of Britain.

www.monbiot.com

(...)

Resto dossier

Cimeira de Copenhaga

De 7 a 18 de Dezembro, os olhos do planeta viram-se para Copenhaga. Neste dossier, destacamos as actividades dos movimentos sociais à margem da cimeira e revelamos as consequências do mercado de emissões de carbono e da irresponsabilidade do governo português. Leia também as opiniões de Naomi Klein, Marisa Matias e Boaventura de Sousa Santos, a declaração do Partido da Esquerda Europeia e a resposta de George Monbiot aos teóricos da conspiração "anti-aquecimentista". Para além da selecção de videoclips de combate às alterações climáticas, publicamos os fundamentos da alternativa ecosocialista, entre outros conteúdos. Acompanhe também o Diário de Copenhaga e as notícias da cimeira.

Marisa Matias: "Ser realista é, neste cenário, ser exigente"

A eurodeputada bloquista Marisa Matias vai a Copenhaga integrada na delegação oficial do Parlamento Europeu e é uma das convidadas para o Klimaforum, a cimeira paralela dos movimentos sociais, onde apresentará uma conferência sobre alternativas não-capitalistas às alterações climáticas. Nesta entrevista à newsletter do Gabinete do PE em Portugal, Marisa Matias defendeu que no combate às alterações climáticas "não podemos andar sempre a fingir que partimos da 'hora zero' da história".

A irresponsabilidade climática dos Governos de Sócrates

Dados oficiais dizem-nos aquilo que já há muito tempo sabemos: Portugal está acima da meta a que se comprometeu no âmbito do Protocolo de Quioto. Artigo de Rita Calvário

Sentir a respiração do planeta

O site Breathing Earth dá-nos a oportunidade de assistir a uma simulação em tempo real das emissões de CO2 de cada país no mundo, bem como as suas taxas de nascimento e morte. Passe o rato sobre o mapa de cada país para conhecer os respectivos dados.

China: compromisso pouco ambicioso, porém seguro

China e Estados Unidos lutam para ter um papel protagonista na cimeira sobre mudança climática que acontecerá em menos de duas semanas em Copenhaga mediante anúncios de redução de emissões contaminantes que para esses países será um grande desafio. Artigo de Antoaneta Bezlova, da IPS News.

Biblioteca do mercado de carbono

Estão disponíveis na internet alguns documentos interessantes que explicam o funcionamento e as consequências do mercado de carbono. O esquerda.net seleccionou para este dossier alguns e-books de referência (disponíveis apenas em inglês): "Mercado de carbono: Como funciona e porque não funciona", "A Verdade Mais Inconveniente de Todas", "Uma Obsessão Perigosa", "Contornos da Justiça Climática", "A economia política do mercado de carbono" e a banda desenhada "O Supermercado do Carbono - o teu futuro à venda".

Carbono: democracia ou mercado?

Nas vésperas da Cimeira do Clima de Copenhaga é necessário perceber o que ganhou a Humanidade e o Planeta com o comércio de emissões instituído em Quioto. Artigo de Nelson Peralta

Copenhaga: Seattle está a crescer

Há dias, recebi uma cópia de pré-publicação de A Batalha da História da Batalha de Seattle, de David Solnit e Rebecca Solnit. Deve sair do prelo dez anos após uma coligação histórica de activistas ter impedido a cimeira da Organização Mundial do Comercio em Seattle, tendo sido a faísca que deu início a um movimento global anti- corporativo. Artigo de Naomi Klein

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A caminho de Copenhaga, são muitas as organizações e colectivos que aproveitam a internet para passar a mensagem através de vídeos e spots de propaganda, simples e directos. Veja aqui a selecção do esquerda.net para este dossier.

Parem as Alterações Climáticas! Justiça Ambiental e Social Já!

Além da crise económica, financeira e social, existe ainda um outra que estamos a viver: a crise ecológica. O Partido da Esquerda Europeia (PEE) sublinha que a crise ecológica tem já um impacto dramático hoje em dia e que, provavelmente, adquirirá uma dimensão catastrófica num futuro próximo. Declaração do Partido da Esquerda Europeia.

A Ordem dos Cavaleiros do Carbono

A publicação na internet de milhares de emails internos roubados aos servidores da Unidade de Investigação Climática da Universidade de East Anglia mostraram a animosidade de alguns cientistas em relação aos "cépticos" do aquecimento global. Nos dias que se seguiram, tornaram-se mesmo no principal argumento destes últimos para atacar as propostas que o movimento pela justiça climática leva a Copenhaga. Neste artigo, George Monbiot responde aos que vêem nas alterações climáticas uma conspiração global da comunidade científica.

Ecosocialismo e planeamento democrático

O que é o ecosocialismo? "Fundado nos argumentos básicos do movimento ecologista e da crítica marxista da economia política, esta síntese dialéctica - tentada por um vasto espectro de autores, de André Gorz (nos seus primeiros escritos) a Elmar Altvater, James O’Connor, Joel Kovel e John Bellamy Foster – é ao mesmo tempo uma crítica da “ecologia de mercado”, que não desafia o sistema capitalista, e do “socialismo produtivista”, que ignora a questão dos limites naturais". Artigo de Michael Löwy, publicado na revista Vírus.

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Como já se previra, a próxima Conferência da ONU sobre a Mudança Climática, a realizar em Copenhaga de 7 a 18 de Dezembro, será um fracasso que os políticos irão tentar disfarçar com recurso a vários códigos semânticos como “acordo político”, “passo importante na direcção certa”. O fracasso reside em que, ao contrário dos compromissos assumidos nas reuniões anteriores, não serão adoptadas em Copenhaga metas legalmente obrigatórias para a redução das emissões dos gases responsáveis pelo aquecimento global cujos perigos para a sobrevivência do planeta estão hoje suficientemente demonstrados para que o princípio da precaução deva ser accionado. Artigo de Boaventura de Sousa Santos

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