O Culto da Apple: o factor Jobs

Quando o marketing se torna um génio em si próprio – quando o desnecessário é vendido como necessário (alguém quer mais aplicações redundantes?) então todos nós, quer saibamos ou não, juntámo-nos ao Culto Apple. Por Binoy Kampmark, Counterpunch

03 de novembro 2011 - 16:11
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Fila paras comprar os primeiros iPads na Austrália. Foto de BeauGiles

Até ficamos tontos só de ouvir quando mais ler o material excitante. Existem filas acampadas, nerds fiéis, promotores de aplicações e 'fanboys'. O culto da Apple, o culto do chique e do que está na moda. A morte de Steve Jobs, um inovador extraordinário e o alto sacerdote do Macintosh, desanimou os seus seguidores. Fomos longe demais na lógica hedonista, iPhone na mão, iPad a postos, para conseguirmos dar-lhe sentido? Quando o marketing se torna um génio em si próprio – quando o desnecessário é vendido como necessário (alguém quer mais aplicações redundantes?) então todos nós, quer saibamos ou não, juntámo-nos ao Culto Apple.

Tudo começou em 1976 quando Jobs fundou a empresa. Não demorou muito até a Apple ter sido identificada como uma religião num sentido diferente da Microsoft. O Mac, disse o académico e semiologista italiano Umberto Eco em Setembro de 1994, no semanário Espresso, era católico. Já a Microsoft, sugeriu, era protestante – nem todos chegarão ao céu e passarão os portões, pois o utilizador atormentado terá de dominar a parte técnica do programa, muitas vezes com a ajuda de manuais que são autênticos tijolos. O catolicismo da Apple, por outro lado, leva uma mensagem “alegre, amigável, conciliatória, diz ao fiel como deve proceder passo a passo para chegar – se não ao Reino dos Céus – ao momento de imprimir o documento.”

O PC é visto como o trabalhador teimoso, o satânico, aborrecido, ortodoxo para chegar ao lucro, o industrial; a Apple como o irreverente, artístico, charmoso e até belo. Se não quer trabalhar e a vontade de distrair-se chegou, então a Apple é a sua opção, em todo o seu esplendor barroco, o seu cheiro intoxicante. O culto da Apple é em si o génio de Jobs, porque a tecnologia deixou de ser uma ferramenta, em vez disso tornou-se em algo que possui um espírito animista, um encantamento.

Com uma narrativa religiosa, uma empresa como a Apple torna-se imune a análises penetrantes. Indivíduos como o comportamentalista de consumo Russell Belk tornaram a religião do Mac um caso de estudo (Wired, 5 de Dezembro de 2002). Os problemas do produto são convenientemente ignorados. Falhanços como o Lisa e o Apple III são vistos como falhas da mente demasiado ambiciosa, do optimista supremo. “Dêem aos seguidores algum tempo – eles verão a luz.” No fim das contas, os desastres financeiros serão ultrapassados e a ressurreição terá lugar. Além disso, as divindades são infalíveis.

Charlis Brooker, no Guardian (1 de Fevereiro de 2010), colocou a questão muito bem quando o iPad foi posto à venda. “A Apple tem uma enorme capacidade de pegar em conceitos já existentes – computadores, leitores de mp3 – e produzi-los cuidadosamente como aparelhos ergonómicos e cintilantes de aspiração concentrada.” E que presunção é esta – um portátil para a mesa do café (MacBook) e um iPhone tipo MacBook.

O culto da Apple causou algum desconforto. Mas isso não impediu que as pessoas chorassem a morte do alto padre que foi Steve Jobs. “Passei grande parte da última década contra a Apple e o culto”, escreve Aneurin Bosley no Toronto Star (6 de Outubro) “mas agora que Steve Jobs morreu não sinto nada mais que pena.” As suas memórias de quando recebeu o Apple Ille em 1983 são fortes. Tais como as do regresso de Jobs à Apple em 1997, intratável, tomando decisões notáveis e às vezes bizarras – a repentina remoção das teclas de direcção no teclado ou a instalação de entradas USB impraticáveis.

No final, qualquer culto de personalidade sempre produz distorções exageradas. Mas Jobs esteve sempre presente com uma inclinação para a inovação, um paladino da tecnologia, poderíamos até dizer um pária na cena informática. “Para quê entrar na marinha,” disse ele, “se pudemos ser piratas?”.

Binoy Kampmark foi um académico da Commonwealth na Universidade de Selwyn, Cambridge. Actualmente ensina na Universidade RMIT, Melbourne. Email: [email protected]

10 de Outubro de 2011

Tradução de Sofia Gomes para o Esquerda.net

http://www.counterpunch.org/2011/10/10/the-jobs-factor/

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