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Ir-se embora: a opção menos má

Exceptuando um bando de resistentes e optimistas neoconservadores e de apologistas oficiais do regime Bush, quase toda a gente concorda hoje que os Estados Unidos entraram numa feia e auto-destrutiva confusão no Iraque, onde estão a combater uma guerrilha persistente que não podem vencer. Ao mesmo tempo, um grande número de críticos da invasão americana do Iraque, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, dizem repetidamente que, apesar de tudo, os Estados Unidos não podem simplesmente "ir-se embora".

Por Immanuel Wallerstein

Não é muito claro o que quer dizer não ir-se embora, mas parece que significa manter tropas e bases dos EUA no Iraque durante um tempo considerável, enquanto os Estados Unidos tentam, em vão, capacitar o governo iraquiano sob a sua tutela para obter algum tipo de controlo razoável sobre o seu território e restaurar uma pitada de vida pacífica aos seus cidadãos.

Vamos então explorar por que se diz que os Estados Unidos não podem simplesmente "ir-se embora". Há uma longa lista de supostas consequências que parecem, superficialmente, plausíveis. Uma é que o resultado seria uma irrefreável guerra civil no Iraque. Isto pode ser verdade, apesar de muitos iraquianos sentirem que já estão a viver precisamente essa guerra civil, mesmo com tropas dos EUA em cena.

Uma segunda razão é de que significaria a tomada do poder por jihadistas ligados à Al Qaeda no Iraque. Esta possibilidade é remota. Em qualquer caso, foi a presença de tropas dos EUA no Iraque que ofereceu a principal base de recrutamento de iraquianos a estas organizações. Elas nem sequer existiam nos dias de Saddam Hussein. A invasão dos EUA levou ao seu surgimento no Iraque. Quanto ao Afeganistão, os taliban estavam realmente lá antes de os Estados Unidos chegarem. Perderam o poder no governo central como resultado da invasão. Mas parecem estar no processo de reconquistá-lo agora, apesar da considerável presença das tropas dos EUA e da Nato. Além disso, é incerto quanto tempo as tropas da Nato estarão dispostas a permanecer.

Uma terceira razão é que uma retirada dos EUA significaria o reforço da posição do Irão no Iraque e mais em geral no Médio Oriente. Isto também pode ser verdade, mas a maioria dos analistas mais sérios sentem que o Irão já foi o maior beneficiário da invasão americana. Destruiu um sério opositor do Irão, Saddam Hussein. Colocou os grupos xiita e curdo numa posição de considerável poder no Iraque, grupos que têm mantido ligações próximas com o Irão e provavelmente vão continuar a mantê-las e a reforçá-las. Não há indicações de que a presença dos EUA esteja a enfraquecer a posição do Irão. Muito pelo contrário.

Uma quarta razão é que uma retirada iria prejudicar o acesso dos EUA ao fornecimento de petróleo do Médio Oriente. Contudo, a presença dos EUA levou a um decréscimo, não a um aumento, da produção iraquiana, que não será seriamente retomada enquanto a guerra estiver em curso. Além disso, o declínio do poder dos EUA em consequência da invasão fracassada levou a Arábia Saudita, o Irão e outros produtores a começar a expandir o seu papel como fornecedores de petróleo da China, da Índia e de outros países, à custa do acesso dos EUA a longo prazo.

Uma quinta razão é que a retirada das tropas e das bases americanas seria uma humilhação incrível dos Estados Unidos, um reconhecimento da derrota e perda de poder. Além disso, seria visto como uma "traição" por todos os membros do Exército que combateram e que viram camaradas morrer no Iraque. Isto é indubitavelmente verdade. A questão é saber se isto não está já a acontecer de qualquer forma. E a questão ainda maior é se ter ainda mais pessoas a combater e a morrer significa um "apoio" aos que combateram e morreram numa guerra que não se pode vencer.

Vamos explorar as alternativas que se apresentam diante dos Estados Unidos. As duas únicas alternativas realistas são a expulsão pelo governo iraquiano, ou "ir-se embora". Com toda a conversa sobre as rivalidades étnicas irreconciliáveis no Iraque, não devíamos minimizar a força do nacionalismo iraquiano entre sunitas e xiitas. Depois de 2009, quando eles virem que a provável administração democrata dos Estados Unidos vai continuar a hesitar em relação à retirada, a pressão para criar uma frente única de xiitas e sunitas, que só pode ser construída na base da necessidade de sair de baixo da omnipresença norte-americana, provavelmente vai-se tornar enorme. Já estamos a testemunhar as silenciosas negociações que estão a decorrer a este respeito. Quanto aos curdos, desde que retenham um razoável grau de autonomia, vão relutantemente concordar com esta autonomia como a melhor opção que têm na actual situação. Considero que esta é a mais provável saída da presente situação.

Qual seria a vantagem de "ir-se embora?" Vamos primeiro esclarecer o que significa. Significa uma declaração do governo dos Estados Unidos de que vai retirar todas as tropas sem excepção e encerrar todas as bases no Iraque num prazo de, digamos, seis meses da data do anúncio. É melhor do que ser expulso (isto é, receber um pedido formal para sair) por um novo governo resultante de uma nova aliança nacionalista dentro do Iraque? Claro que sim. A retirada dos EUA marcaria o primeiro passo no longo e difícil caminho de curar os EUA da doença provocada pelo seu vício imperial, o primeiro passo num doloroso esforço de restaurar o bom nome dos Estados Unidos na comunidade mundial.

Ir-se embora será realmente difícil e doloroso. Mas a retirada é tão necessária para os Estados Unidos como o é a abstinência para um alcoólico, dando o primeiro passo no caminho da total renúncia ao vício.

15 de Fevereiro de 2008

(...)

Resto dossier

Dossier 5 anos de guerra do Iraque

Quando passam cinco anos do início da guerra do Iraque, o Esquerda.net dedica o seu dossier a discutir as causas e o balanço desta invasão que está a destruir um dos países-chave do Médio Oriente e a levar o caos a toda a região.

Robert Fisk: A única lição que aprendemos é que nunca aprendemos

Passaram-se cinco anos e ainda não aprendemos. Com cada aniversário, os degraus desfazem-se debaixo dos nossos pés, as pedras abrem cada vez mais brechas, a areia fica cada vez mais fina. Cinco anos de catástrofes no Iraque e penso em Churchill, que no final chamou à Palestina "desastre infernal".

Por Robert Fisk, publicado originalmente no The Independent
 

Os lucros do massacre contra o Iraque

De empresas do sector bélico às de alimentação, de empresas de construção civil às de confecção de uniformes, cada uma abocanha a sua parte dos mais de um bilião de dólares já gastos

Por Memélia Moreira, especial para o Brasil de Fato de Orlando (EUA).
 

Cinco anos de inferno

Ao completar-se cinco anos da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, a tétrica realidade e a opinião pública iraquiana desmentem o governo do país ocupante, segundo o qual a situação melhorou. Um em cada três iraquianos abandonou a sua casa, depende da assistência de emergência para sobreviver ou morreu por causa da invasão e da ocupação. Com as "eternas" bases militares dos EUA no Iraque e uma embaixada em Bagdade do tamanho do Vaticano, não se vislumbra no horizonte o fim da ocupação.
Artigo de Dahr Jamail, publicado por IPS

Ir-se embora: a opção menos má

Exceptuando um bando de resistentes e optimistas neoconservadores e de apologistas oficiais do regime Bush, quase toda a gente concorda hoje que os Estados Unidos entraram numa feia e auto-destrutiva confusão no Iraque, onde estão a combater uma guerrilha persistente que não podem vencer. Ao mesmo tempo, um grande número de críticos da invasão americana do Iraque, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, dizem repetidamente que, apesar de tudo, os Estados Unidos não podem simplesmente "ir-se embora".

Por Immanuel Wallerstein
 

Radiografia da invasão

Afinal, quais foram as verdadeiras razões pelas quais os EUA invadiram o Iraque há cinco anos, na noite de 19 para 20 de Março?
... este grupo [uma coligação de nacionalistas agressivos, neoconservadores e líderes da direita cristã] viu o Iraque como o caminho mais fácil para estabelecer os Estados Unidos como a potência dominante na região, com implicações estratégicas de carácter global para possíveis futuros competidores.
Análise de Jim Lobe, publicado pela IPS

Refugiados: duplicam pedidos de asilo aos países industrializados

O número de iraquianos que procuram asilo político nos países industrializados quase duplicou no ano passado, revertendo a tendência de queda registada nos últimos cinco anos, revelou um relatório da Organização das Nações Unidas divulgado recentemente. Mais de 45 mil iraquianos pediram asilo em 43 países industrializados em 2007 - 98% acima dos quase 23 mil registrados no ano anterior. Calcula-se que 4,5 milhões de iraquianos foram deslocadas pela guerra internamente ou refugiaram-se nos países vizinhos.
 

Amnistia Internacional: cinco anos de carnificina e desespero no Iraque

Cinco anos depois de as forças lideradas pelos Estados Unidos terem derrubado Saddam Hussein, o Iraque permanece um dos países mais perigosos do mundo para os direitos humanos, diz a Amnistia Internacional.

Publicado originalmente no site da Amnistia Internacional

 

UE quer transparência em relação a empresas de mercenários

A subcontratação de companhias para actividades militares tornou-se muito polémica desde que os Estados Unidos invadiram o Iraque há cinco anos, afirma um relatório apresentado no Parlamento Europeu.
Por David Cronin para a IPS, de Bruxelas