Fiasco islamista na Tunísia

Criação de uma frente unida contra o Ennahda em nome da defesa das liberdades, aparição de uma fratura no seio do partido do poder, demonstração do fracasso económico e securitário do governo: os responsáveis ainda desconhecidos do assassinato de Belaïd talvez não imaginassem chegar a tal resultado. Esperando que a sua violência intimidasse os opositores, descobriram que, pelo contrário, despertaram a sociedade tunisina. Por Serge Halimi

17 de fevereiro 2013 - 22:15
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Funeral de Chokri Belaïd – Foto de Sarah Mersch/Flickr

O assassinato do dirigente político de esquerda Chokri Belaïd provocou um vigoroso movimento de mobilização popular contra o regime. A 8 de fevereiro, uma manifestação gigante em Tunes foi acompanhada no conjunto do país por uma greve geral convocada pela UGTT, a poderosa central sindical. Num comunicado excecionalmente vigoroso, esta imputou ao governo “a responsabilidade completa em matéria de propagação da violência política e social, acobertando os seus autores e não perseguindo os agressores de todos os crimes cometidos contra a UGTT, os partidos e os componentes da sociedade civil”. Retomando as palavras de ordem da revolução que derrubou a ditadura de Ben Ali em janeiro de 2011, a multidão de manifestantes gritou: “Fora! Fora! O povo quer a queda do regime.”

Este assassinato abriu igualmente uma importante crise no seio do partido islamista conservador no poder, o Ennahda. O desejo do primeiro-ministro Hammadi Jebali de formar um “governo de competências nacionais sem filiação política” chocou-se, de facto, no terreno, com a rejeição dos principais dirigente do seu partido.

Duas tendências principais afrontam-se no seu interior. A primeira reúne aqueles que, atrás do atual primeiro-ministro, procuram governar o país, continuando a assumir compromissos com outras formações políticas não religiosas (o Ennahda, mesmo tendo vencido por ampla margem as eleições de outubro de 2011, não dispõe de maioria no seio da Assembleia Constituinte).

A outra tendência é composta pelos que, recusando dissociar-se de uma base islamista tão mais radical por ser espicaçada pelos salafistas, tendem a infiltrar-se nas instituições e nas administrações do país para favorecer o desígnio de impor um Estado religioso. Neste caso, certos de entre eles, pouco numerosos mas muito mobilizados, dispuseram-se a reduzir ao silêncio os opositores “laicos” que fustigam como “ímpios”, “descrentes” ou “traidores”. O que conduz muito logicamente estes últimos a fazerem frente comum, da direita à extrema esquerda,em nome das liberdades públicas ameaçadas.

No terreno económico, o projeto liberal do Ennahda, como aliás o da Irmandade Muçulmana no Egito (ler o artigo de Gilbert Achcar, “Le “capitalisme extrême” des Frères musulmans”, no Le Monde Diplomatique deste mês), não é, assim, fundamentalmente diferente do da oposição de centro direita (Nida Tounes), ou mesmo... do anterior regime benalista. Na ausência de um auxílio financeiro vindo do G8 (foram prometidos 70 mil milhões de dólares em maio de 2011 aos países da margem sul do Mediterrâneo no quadro da parceria de Deauville) ou do Qatar, uns como os outros resignaram-se a seguir as prescrições amargas do Fundo Monetário Internacional.

Os homens que mataram Belaïd demonstraram que, num país onde a situação económica permanece degradada (em particular no front do emprego), a segurança dos opositores deixou de ser assegurada por um governo que tem, contudo, essa responsabilidade. Algumas ameaças de violência física proferidas por fundamentalistas muçulmanos foram de facto executadas sem que a polícia e o Ministério Público interviessem. Em outubro último, outro adversário do regime, Lofti Nagdh, membro do Nida Tounes, foi assassinado em Tataouine; e os quadros islamistas não hesitaram em reclamar, pouco depois, a libertação dos assassinos.

Criação de uma frente unida contra o Ennahda em nome da defesa das liberdades, aparição de uma fratura no seio do partido do poder, demonstração do fracasso económico e securitário do governo: os responsáveis ainda desconhecidos do assassinato de Belaïd talvez não imaginassem chegar a tal resultado. Esperando que a sua violência intimidasse os opositores, descobriram que, pelo contrário, despertaram a sociedade tunisina.

Para reconfortar-se, os fundamentalistas apenas puderam contar recentemente com... as declarações à queima-roupa do sr. Manuel Vals, ministro francês do Interior. Em 7 de fevereiro, este denunciou “um fascismo islâmico que cresce um pouco por todo o lado”. E declarou “manter a esperança no calendário eleitoral para que as forças democráticas e laicas, as que têm os valores desta revolução de Jasmin, vençam, amanhã”.

Ora, se há uma posição que reúne a quase unanimidade na Tunísia é sem dúvida a rejeição de qualquer ingerência política da anterior potência colonial, a qual manteve até o último dia excelentes relações com a ditadura de Ben Ali. A menos que se quisesse causar dano às “forças democráticas e laicas”, vê-se mal qual o interesse de apresentá-las como os instrumentos políticos dos desígnios de Paris. Logicamente, os militantes islamistas (bandeiras do Ennahda e dos salafistas misturadas) reagiram à intemperança do sr. Vals organizando, em 9 de fevereiro, uma manifestação nas redondezas da embaixada de França. Durante alguns instantes, o tema da defesa da soberania tunisina permitiu-lhes fazer um pouco esquecer o assassinato político de Chokri Belaïd. Não obstante, houve apenas alguns milhares a manifestarem-se. Sinal da desorganização dos islamistas, de um eclipse da sua influência?

Artigo de Serge Halimi, publicado em Le Monde Diplomatique - França.

11 de fevereiro de 2013

Tradução de Luís Leiria para o Esquerda.net

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